segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Promoção PAYPAL (porque é Outono, e porque sim)
Divulguem: em compras no nosso site pagas com Paypal que ultrapassem os 19,99 Euros, o/a feliz (acreditamos que sim) comprador/a poderá escolher 2 (dois) outros livros do nosso catálogo. Sem limitações, a não ser as do stock. (Se não sabem o que é o Paypal, visitem o site e comecem a usá-lo). Devem usar a referência "Promoção PAYPAL" ao fazerem a compra e indicar quais os livros pretendidos.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Bailinho
Uma linhas de texto que, na sua simplicidade, explicam muita coisa. Foram retiradas de uma guia de pagamento da IES (Informação Empresarial Simplificada): "SE A PRESTAÇÃO DE CONTAS RESPEITA A ENTIDADE COM SEDE NA ZONA FRANCA DA MADEIRA NÃO PROCEDA AO PAGAMENTO, UMA VEZ QUE O SEU REGISTO BENEFICIA DE GRATUITIDADE EMOLUMENTAR."
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Life is a pop of the cherry when you're a boy*
Recebemos este email há dias, e esses foram dias em que tentámos compreendê-lo. Não conseguimos. Decidimos colocar o grosso do seu conteúdo (salvaguardados a identidade do remetente e outros detalhes de ordem mais pessoal, que omitimos) para consulta aqui como medida pedagógica e como amostra do que passa por "edição" na cabeça de muito boa gente por aí (alguma dela, pelos vistos, com tanta idade quanta a que aparenta ter, e que devia ser melhor aconselhada). Aviso: pode provocar riso descontrolado, aconselha-se água com açúcar em caso de soluços.
"Boa tarde,
O meu nome é ................, tenho ..... anos [legalmente, um adolescente, mais novo do que o Justin Bieber, mais velho do que os rebentos da Britney Spears] e lidero um projecto que integra cerca de sete mil jovens entre os 12 e os 27 anos, denominado .................... . Trata-se não de um espaço físico, mas sim de uma reestruturação do conceito de Biblioteca, dirigindo-o para uma congregação de esforços e iniciativas que culminem na projecção, divulgação e aposta no talento dos jovens portugueses. Promovemos o empreendedorismo jovem e cremos num Portugal de futuro.
[Segue-se um parágrafo em que a obra literária por trás, ou pela frente, do projecto é apresentada, referindo-se um nome sonante dos media como prefaciador]
Contacto-os no sentido de propor-lhes uma parceria relativa à segunda obra da minha autoria, '....................' . O que proponho será uma parceria editorial, sendo que ao encargo da .................... ficaria a capa (já construída - segue em anexo, sendo que teria de ser alterada de forma a incluir igualmente a vossa editora), o design original e exclusivo do interior da obra (incluindo paginação) e o lançamento da mesma. À editora caberia o processo de revisão, processo tipográfico e de distribuição. A .................... requisitaria a percentagem de 15% dos lucros e a mim caber-me-iam (direitos de autor) 10%. A obra teria o formato 15x23, sem badanas, 220 páginas. [Fonte e corpo do texto, entrelinha, margens, tipo de acabamento, parecem ser da ordem da fantasia no meio deste meticuloso plano. Mas continue-se a leitura e mantenha-se o espanto...]
Tratar-se-á de uma obra com carácter inédito e exclusivo que poderá trazer muitos lucros a ambas as partes caso vise uma distribuição abrangente. Importa ainda constatar que a .................... tem programadas apresentações da obra em questão em dois principais canais televisivos nacionais (Programas: Querida Júlia, Sic; A Tarde é Sua - TVI) e em diversas estações de rádios (ex. TSF). [Ou seja: já há promoção garantida para um livro que ainda nem existe]
Contaremos ainda com um lançamento (ao encargo, repito, da .................... ) que visará diversas actuações teatrais, a participação da caracterizadora .................... , que caracterizará cerca de 10 jovens de índios brasileiros, actuações musicais, participação do mágico .................... , com magias de bolso e a grande magia de palco 'Caminhar descalso [sic] sobre uma passadeira de cacos de vidros', entre outras atracções. [E quem paga as pipocas? Certamente o editor...]
Resta-nos dizer que realizámos uma pequena sondagem [a quem: família, amigos, colegas no colégio?] que comprova o interesse das pessoas pela obra, pelo seu conteúdo e [eis o engodo] pela minha reduzida idade como autor. Abaixo encontra-se o book trailer e uma pequena sinopse da obra. Encontra-se ainda o book trailer do meu primeiro romance '.................... '.
Fico a aguardar."
E nós também, desejosos de saber se há peixe por esse tumultuoso lago capaz de morder isco tão escorregadio.
PS.: O booktrailer é igualmente antológico. Recomendamos.
* Verso da canção Boys keep swinging de David Bowie.
"Boa tarde,
O meu nome é ................, tenho ..... anos [legalmente, um adolescente, mais novo do que o Justin Bieber, mais velho do que os rebentos da Britney Spears] e lidero um projecto que integra cerca de sete mil jovens entre os 12 e os 27 anos, denominado .................... . Trata-se não de um espaço físico, mas sim de uma reestruturação do conceito de Biblioteca, dirigindo-o para uma congregação de esforços e iniciativas que culminem na projecção, divulgação e aposta no talento dos jovens portugueses. Promovemos o empreendedorismo jovem e cremos num Portugal de futuro.
[Segue-se um parágrafo em que a obra literária por trás, ou pela frente, do projecto é apresentada, referindo-se um nome sonante dos media como prefaciador]
Contacto-os no sentido de propor-lhes uma parceria relativa à segunda obra da minha autoria, '....................' . O que proponho será uma parceria editorial, sendo que ao encargo da .................... ficaria a capa (já construída - segue em anexo, sendo que teria de ser alterada de forma a incluir igualmente a vossa editora), o design original e exclusivo do interior da obra (incluindo paginação) e o lançamento da mesma. À editora caberia o processo de revisão, processo tipográfico e de distribuição. A .................... requisitaria a percentagem de 15% dos lucros e a mim caber-me-iam (direitos de autor) 10%. A obra teria o formato 15x23, sem badanas, 220 páginas. [Fonte e corpo do texto, entrelinha, margens, tipo de acabamento, parecem ser da ordem da fantasia no meio deste meticuloso plano. Mas continue-se a leitura e mantenha-se o espanto...]
Tratar-se-á de uma obra com carácter inédito e exclusivo que poderá trazer muitos lucros a ambas as partes caso vise uma distribuição abrangente. Importa ainda constatar que a .................... tem programadas apresentações da obra em questão em dois principais canais televisivos nacionais (Programas: Querida Júlia, Sic; A Tarde é Sua - TVI) e em diversas estações de rádios (ex. TSF). [Ou seja: já há promoção garantida para um livro que ainda nem existe]
Contaremos ainda com um lançamento (ao encargo, repito, da .................... ) que visará diversas actuações teatrais, a participação da caracterizadora .................... , que caracterizará cerca de 10 jovens de índios brasileiros, actuações musicais, participação do mágico .................... , com magias de bolso e a grande magia de palco 'Caminhar descalso [sic] sobre uma passadeira de cacos de vidros', entre outras atracções. [E quem paga as pipocas? Certamente o editor...]
Resta-nos dizer que realizámos uma pequena sondagem [a quem: família, amigos, colegas no colégio?] que comprova o interesse das pessoas pela obra, pelo seu conteúdo e [eis o engodo] pela minha reduzida idade como autor. Abaixo encontra-se o book trailer e uma pequena sinopse da obra. Encontra-se ainda o book trailer do meu primeiro romance '.................... '.
Fico a aguardar."
E nós também, desejosos de saber se há peixe por esse tumultuoso lago capaz de morder isco tão escorregadio.
PS.: O booktrailer é igualmente antológico. Recomendamos.
* Verso da canção Boys keep swinging de David Bowie.
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Pérolas
sábado, 24 de setembro de 2011
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Uma glândula chamada "consciência"
Eduardo Galeano no programa "Sangue Latino" do Canal Brasil, em 2009
O caminho para as Índias
Um excerto (lido por Juan Leyrado) de MEMÓRIA DO FOGO 1. OS NASCIMENTOS de Eduardo Galeano que estará no mercado a partir do dia 23.
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António Mega-Ferreira,
Eduardo Galeano
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Curiouser and curiouser...

"A partir da próxima semana, este pequeno cartaz chega a todo o país através da rede de livrarias Bertrand." (ler o resto da notícia aqui).
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
"Somos livros" uniformizados
"Neste sentido todos os materiais de merchandising, catálogos, newsletters e restantes materiais de marketing foram alterados de acordo com a nova ortografia. Na sequência desta alteração e com o objetivo de assegurar uma uniformização dos conteúdos de forma a que sejamos coerentes na comunicação com os nossos leitores, solicitamos que os materiais de marketing das editoras a colocar nas Livrarias Bertrand sejam enviados de acordo com a nova ortografia." (de email recebido da Bertrand)Apenas uma singela (e absolutamente inocente) pergunta: no contexto dessa "uniformização dos conteúdos", quando vão começar a impedir a venda de livros cuja ortografia não obedece deliberadamente (i.e., por convicção) ao dito "Acordo Ortográfico"?
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Bertrand
domingo, 28 de agosto de 2011
Em breve
MEMÓRIA DO FOGO 1. OS NASCIMENTOS de Eduardo Galeano estará no mercado sensivelmente a partir de meados de Setembro. Podem ler entretanto algo do seu conteúdo neste pequeno flipbook.
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sexta-feira, 19 de agosto de 2011
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Vieira
"1640 / São Salvador da Baía
Cintila-lhe a boca enquanto lança palavras armadas como exércitos. O orador mais perigoso do Brasil é um sacerdote português criado na Baía, baiano de alma.
Os holandeses invadiram estas terras e o jesuíta António Vieira pergunta aos senhores coloniais se não somos nós de cor tão escura em relação aos holandeses, como os índios em relação a nós. Do alto do púlpito, o dono da palavra increpa os donos da terra e da gente:
– Hei-de ser senhor porque nasci mais longe do sol, e outros hão-de ser escravos porque nasceram mais perto? Não pode haver maior inconsideração do entendimento, nem maior erro de juízo entre os homens!
Na igreja da Ajuda, a mais antiga do Brasil, António Vieira acusa também Deus, culpado de ajudar os invasores holandeses:
– Embora sejamos nós os pecadores, haveis de ser Vós, hoje, o arrependido!"
Eduardo Galeano, Memória do Fogo – Os Nascimentos (tradução de António Marques; no prelo)
Cintila-lhe a boca enquanto lança palavras armadas como exércitos. O orador mais perigoso do Brasil é um sacerdote português criado na Baía, baiano de alma.
Os holandeses invadiram estas terras e o jesuíta António Vieira pergunta aos senhores coloniais se não somos nós de cor tão escura em relação aos holandeses, como os índios em relação a nós. Do alto do púlpito, o dono da palavra increpa os donos da terra e da gente:
– Hei-de ser senhor porque nasci mais longe do sol, e outros hão-de ser escravos porque nasceram mais perto? Não pode haver maior inconsideração do entendimento, nem maior erro de juízo entre os homens!
Na igreja da Ajuda, a mais antiga do Brasil, António Vieira acusa também Deus, culpado de ajudar os invasores holandeses:
– Embora sejamos nós os pecadores, haveis de ser Vós, hoje, o arrependido!"
Eduardo Galeano, Memória do Fogo – Os Nascimentos (tradução de António Marques; no prelo)
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quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Infâmia recordada
Com algum atraso, mas aqui fica: o registo da inclusão de UMA NOVA HISTÓRIA UNIVERSAL DA INFÂMIA de Rhys Hughes nas 100 edições mais memoráveis dos 100 primeiros números da revista Os Meus Livros, em lista publicada no mês passado.
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Os Meus Livros,
Rhys Hughes
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Apocalípticos e dissolvidos
Lê-se e não se acredita:
"O escritor italiano Umberto Eco vai reescrever o romance 'O Nome da Rosa', que lhe garantiu a notoriedade mundial, para o tornar 'mais acessível a novos leitores', noticiou o diário romano 'La Repubblica'.É, pois, oficial: os "integrados" ganham aos "apocalípticos" por KO e passam a chamar-se "dissolvidos".
Eco vai aligeirar várias passagens da obra assim como a linguagem usada no 'thriller' medieval, com ação passada no século XV, para o aproximar das novas gerações e das novas tecnologias. 'O Nome da Rosa' teve origem na paixão declarada do autor, um medievalista confesso, pelos livros e pela cultura da época.
O escritor tem por objetivo ultrapassar a dificuldade idiomática ou a densidade de várias passagens da obra, assim como chegar àqueles que só conhecem excertos publicados na internet, através das potencialidades de uma nova edição digital." (in Visão)
terça-feira, 12 de julho de 2011
Oitenta anos

Com atraso de alguns dias, aqui fica a nossa lembrança do aniversário do cineasta António de Macedo. E a lembrança de um post publicado por nós a 5 de Outubro de 2008, depois da exibição de um fabuloso documentário "perdido" sobre Almada Negreiros, filmado em 1969 (as últimas imagens em filme do artista, que morreria no ano seguinte). Foi exibido nas Belas Artes de Lisboa durante o Fórum Fantástico de 2008. (Preparamos um livro de ensaios sobre o fantástico em Portugal, um dos quais é da autoria de António de Macedo.)
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António de Macedo
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Onde não há mercado, não há Acordo
(Adaptado de uma troca de opiniões no Facebook com o livreiro Sérgio Lavos)
Como em tudo, eu tendo a guiar-me não tanto pelo que é feito ou proposto (no caso, este Acordo Ortográfico), mas pela forma como é feito ou proposto. E este AO, negociado ainda em pleno cavaquismo, é uma prova da contínua falta de confiança nos referendos, na consulta, no escrutínio da população cuja vida e hábitos serão afectados pelo mesmo (a mesma coisa se passou com a entrada no Euro, com os resultados sabidos...). A questão é a do mercado: um suposto Acordo não vai resolver o simples problema de que entre nós e os outros países de expressão portuguesa, sobretudo o Brasil, não há um mercado cultural (no caso do livro, um mercado com envios postais mais baratos e uniformizados, com baixos impostos para os livros, com abatimento das barreiras alfandegárias, etc). Um mercado em que enviar um livro para o Brasil não custe um terço do seu PVP, obrigando à desistência dos leitores brasileiros interessados (falo por experiência: nunca tivemos um livro nosso recusado por leitores brasileiros pela sua ortografia, mas pelo custo dos portes, ou "fretes", de envio). Tivesse-se primeiro tratado da criação desse mercado da palavra impressa, e eu seria hoje um acérrimo defensor do AO.
Quando, há uns anos (estava eu na onda da ilusão de que se ia conseguir vender alguns livros a conta firme para livrarias brasileiras), um livreiro de uma das melhores livrarias do Rio (que até queria uns livros da Livros de Areia) me disse ao telefone que lhe ficava mais barato e preferia encomendar livros dos Estados Unidos do que de Portugal, fiquei definitivamente "vacinado" contra esta obsessão do AO. Sem resolver essa simples questão (uma editora portuguesa tem livros que quer vender, um livreiro ou leitor brasileiro tem interesse nesses livros, e o que está entre eles impede a satisfação de ambas as partes), receio bem que este Acordo não servirá de nada.
(PM)
Como em tudo, eu tendo a guiar-me não tanto pelo que é feito ou proposto (no caso, este Acordo Ortográfico), mas pela forma como é feito ou proposto. E este AO, negociado ainda em pleno cavaquismo, é uma prova da contínua falta de confiança nos referendos, na consulta, no escrutínio da população cuja vida e hábitos serão afectados pelo mesmo (a mesma coisa se passou com a entrada no Euro, com os resultados sabidos...). A questão é a do mercado: um suposto Acordo não vai resolver o simples problema de que entre nós e os outros países de expressão portuguesa, sobretudo o Brasil, não há um mercado cultural (no caso do livro, um mercado com envios postais mais baratos e uniformizados, com baixos impostos para os livros, com abatimento das barreiras alfandegárias, etc). Um mercado em que enviar um livro para o Brasil não custe um terço do seu PVP, obrigando à desistência dos leitores brasileiros interessados (falo por experiência: nunca tivemos um livro nosso recusado por leitores brasileiros pela sua ortografia, mas pelo custo dos portes, ou "fretes", de envio). Tivesse-se primeiro tratado da criação desse mercado da palavra impressa, e eu seria hoje um acérrimo defensor do AO.
Quando, há uns anos (estava eu na onda da ilusão de que se ia conseguir vender alguns livros a conta firme para livrarias brasileiras), um livreiro de uma das melhores livrarias do Rio (que até queria uns livros da Livros de Areia) me disse ao telefone que lhe ficava mais barato e preferia encomendar livros dos Estados Unidos do que de Portugal, fiquei definitivamente "vacinado" contra esta obsessão do AO. Sem resolver essa simples questão (uma editora portuguesa tem livros que quer vender, um livreiro ou leitor brasileiro tem interesse nesses livros, e o que está entre eles impede a satisfação de ambas as partes), receio bem que este Acordo não servirá de nada.
(PM)
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Acordo Ortográfico
"O requerimento"
"1514, Rio Sinu.
Navegaram muito mar e muito tempo e estão fartos de calores, selvas e mosquitos. Cumprem, não obstante, as instruções do rei: não se pode atacar os indígenas sem requerer, antes, a sua subjugação. Santo Agostinho autoriza a guerra contra quem abuse da sua liberdade, porque na sua liberdade estariam em perigo não sendo domados; mas bem o diz Santo Isidoro que nenhuma guerra é justa sem prévia declaração.
Antes de se lançar sobre o ouro, grãos de ouro talvez do tamanho de ovos, o advogado Martín Fernández de Enciso lê com pontos e vírgulas o ultimato que o intérprete, aos tropeções, demorando-se na entrega, vai traduzindo.
Enciso fala em nome do rei D. Fernando e da rainha D. Juana, sua filha, domadores das gentes bárbaras. Faz saber aos índios do Sinu que Deus veio ao mundo e deixou em seu lugar S. Pedro, que S. Pedro tem como sucessor o Santo Padre e que o Santo Padre, Senhor do Universo, fez mercê ao rei de Castela de toda a terra das Índias e desta península.
Os soldados assam nas armaduras. Enciso letra miúda e sílaba lenta, exige aos índios que deixem estas terras, pois não lhes pertencem, e que, se quiserem continuar a viver aqui, paguem a suas Altezas tributo de ouro em sinal de obediência. O intérprete faz o que pode.
Os caciques escutam, sentados, sem pestanejar, o estranho personagem que lhes anuncia que em caso de negativa ou demora lhes fará guerra, os converterá em escravos bem como suas mulheres e filhos e como tais os venderá e deles disporá, e que as mortes e os danos dessa justa guerra não serão culpa dos espanhóis.
Respondem os caciques, sem olharem para Enciso, que muito generoso com o alheio tinha sido o Santo Padre, que devia estar bêbado quando dispôs do que não era seu, e que o rei de Castela é um atrevido, porque vem ameaçar quem não conhece.
Então, corre sangue.
Em seguida, o longo discurso se lerá em plena noite, sem intérprete e a meia légua das aldeias que serão assaltadas de surpresa. Os indígenas, adormecidos, não escutarão as palavras que os declaram culpados dos crimes cometidos contra eles."
Eduardo Galeano, Memória do Fogo – Os Nascimentos (tradução de António Marques; no prelo)
Navegaram muito mar e muito tempo e estão fartos de calores, selvas e mosquitos. Cumprem, não obstante, as instruções do rei: não se pode atacar os indígenas sem requerer, antes, a sua subjugação. Santo Agostinho autoriza a guerra contra quem abuse da sua liberdade, porque na sua liberdade estariam em perigo não sendo domados; mas bem o diz Santo Isidoro que nenhuma guerra é justa sem prévia declaração.
Antes de se lançar sobre o ouro, grãos de ouro talvez do tamanho de ovos, o advogado Martín Fernández de Enciso lê com pontos e vírgulas o ultimato que o intérprete, aos tropeções, demorando-se na entrega, vai traduzindo.
Enciso fala em nome do rei D. Fernando e da rainha D. Juana, sua filha, domadores das gentes bárbaras. Faz saber aos índios do Sinu que Deus veio ao mundo e deixou em seu lugar S. Pedro, que S. Pedro tem como sucessor o Santo Padre e que o Santo Padre, Senhor do Universo, fez mercê ao rei de Castela de toda a terra das Índias e desta península.
Os soldados assam nas armaduras. Enciso letra miúda e sílaba lenta, exige aos índios que deixem estas terras, pois não lhes pertencem, e que, se quiserem continuar a viver aqui, paguem a suas Altezas tributo de ouro em sinal de obediência. O intérprete faz o que pode.
Os caciques escutam, sentados, sem pestanejar, o estranho personagem que lhes anuncia que em caso de negativa ou demora lhes fará guerra, os converterá em escravos bem como suas mulheres e filhos e como tais os venderá e deles disporá, e que as mortes e os danos dessa justa guerra não serão culpa dos espanhóis.
Respondem os caciques, sem olharem para Enciso, que muito generoso com o alheio tinha sido o Santo Padre, que devia estar bêbado quando dispôs do que não era seu, e que o rei de Castela é um atrevido, porque vem ameaçar quem não conhece.
Então, corre sangue.
Em seguida, o longo discurso se lerá em plena noite, sem intérprete e a meia légua das aldeias que serão assaltadas de surpresa. Os indígenas, adormecidos, não escutarão as palavras que os declaram culpados dos crimes cometidos contra eles."
Eduardo Galeano, Memória do Fogo – Os Nascimentos (tradução de António Marques; no prelo)
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Memória do Fogo
terça-feira, 5 de julho de 2011
Entre as 100 dos 100

UMA NOVA HISTÓRIA UNIVERSAL DA INFÂMIA de Rhys Hughes, que publicámos em Abril de 2006, está entre as 100 edições mais marcantes dos 100 meses (e correspondentes aos 100 números) de vida da revista Os Meus Livros, na edição que este mês comemora esse aniversário.
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Os Meus Livros,
Rhys Hughes
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Nem mais
"... eu gostaria de lembrar ao Francisco José Viegas que caminhos sem retorno também eram, ou são, o TGV, o aeroporto de Alcochete, a bancarrota, a gripe suína e o declínio do Belenenses. O trabalho de um governante consiste, suponho, em tentar contrariar as desgraças ditas inevitáveis. Aceitá-las de braços caídos tende um bocadinho para o fácil e talvez não justifique o salário. [...] Se o objectivo do Governo eleito fosse torrar fortunas em disparates, a 'implementação' do AO viria a calhar. Sucede que o momento é, ou assim nos garantem, de austeridade, por isso dói ver aumentos de impostos contrabalançados por desperdícios quantitativamente pequenos e simbolicamente desmesurados." (Alberto Gonçalves, in "Diário de Notícias", 03.07.2011)
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Acordo Ortográfico,
Francisco José Viegas
sexta-feira, 1 de julho de 2011
"Só por aberrante raciocínio"
Da crónica de Vasco Graça Moura no Diário de Notícias de 29.06.11 (e se precisam de explicador ou "diagramas" para perceberem isto, não há Acordo que vos salve...):
"Isto é tanto mais grave quanto é certo que o Acordo Ortográfico não se encontra em vigor. Só por aberrante raciocínio jurídico poderia aceitar-se o contrário, uma vez que o documento não foi ratificado nem por Angola nem por Moçambique, pelo menos. Logo não produz efeitos na ordem interna de nenhum dos oito países subscritores. [...]
Não vale absolutamente nada um protocolo laboriosamente parturejado na CPLP, para forçar os países que não querem acordo nenhum a 'engolirem' o dito, lá porque houve três ratificações.
Esse protocolo também não foi ratificado. E há onze anos que esses países mostram que não querem o acordo. Lembram-se de que, por cá, havia uns responsáveis da Cultura que há uns tempos andavam a anunciar triunfalmente a ratificação iminente dele por Angola e Moçambique? Era já para dali a meia dúzia de dias... [...]
A 'aplicação' do Acordo a que se vem assistindo em Portugal viola nada mais nada menos do que... o próprio Acordo, uma vez que se está a abrir a porta à divergência ortográfica ao abrigo do delirante princípio das facultatividades.
Foge-se à norma por aplicação absolutamente insensível e estúpida da base IV do documento: no Brasil nunca se escreveu aceção, perceção, deceção, receção, espetador, rutura, perentório... Basta consultar um qualquer dicionário brasileiro."
"Isto é tanto mais grave quanto é certo que o Acordo Ortográfico não se encontra em vigor. Só por aberrante raciocínio jurídico poderia aceitar-se o contrário, uma vez que o documento não foi ratificado nem por Angola nem por Moçambique, pelo menos. Logo não produz efeitos na ordem interna de nenhum dos oito países subscritores. [...]
Não vale absolutamente nada um protocolo laboriosamente parturejado na CPLP, para forçar os países que não querem acordo nenhum a 'engolirem' o dito, lá porque houve três ratificações.
Esse protocolo também não foi ratificado. E há onze anos que esses países mostram que não querem o acordo. Lembram-se de que, por cá, havia uns responsáveis da Cultura que há uns tempos andavam a anunciar triunfalmente a ratificação iminente dele por Angola e Moçambique? Era já para dali a meia dúzia de dias... [...]
A 'aplicação' do Acordo a que se vem assistindo em Portugal viola nada mais nada menos do que... o próprio Acordo, uma vez que se está a abrir a porta à divergência ortográfica ao abrigo do delirante princípio das facultatividades.
Foge-se à norma por aplicação absolutamente insensível e estúpida da base IV do documento: no Brasil nunca se escreveu aceção, perceção, deceção, receção, espetador, rutura, perentório... Basta consultar um qualquer dicionário brasileiro."
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