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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ainda 2011



José Guardado Moreira
, no último A(C)TUAL do "Expresso", escolhe MEMÓRIA DO FOGO 1. OS NASCIMENTOS de Eduardo Galeano como um dos livros de 2011.

domingo, 20 de novembro de 2011

Fogo na língua

Recensão de José Riço Direitinho a MEMÓRIA DO FOGO 1. OS NASCIMENTOS de Eduardo Galeano no Ípsilon do PÚBLICO (18.11.11).

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Já por aí



Hoje na loja da FNAC do Chiado (estante dos "Ensaios Literários").

sábado, 24 de setembro de 2011

domingo, 28 de agosto de 2011

Em breve



MEMÓRIA DO FOGO 1. OS NASCIMENTOS de Eduardo Galeano estará no mercado sensivelmente a partir de meados de Setembro. Podem ler entretanto algo do seu conteúdo neste pequeno flipbook.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

No forno



Novidade em Setembro: MEMÓRIA DO FOGO de Eduardo Galeano.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Vieira

"1640 / São Salvador da Baía
Cintila-lhe a boca enquanto lança palavras armadas como exércitos. O orador mais perigoso do Brasil é um sacerdote português criado na Baía, baiano de alma.
Os holandeses invadiram estas terras e o jesuíta António Vieira pergunta aos senhores coloniais se não somos nós de cor tão escura em relação aos holandeses, como os índios em relação a nós. Do alto do púlpito, o dono da palavra increpa os donos da terra e da gente:
– Hei-de ser senhor porque nasci mais longe do sol, e outros hão-de ser escravos porque nasceram mais perto? Não pode haver maior inconsideração do entendimento, nem maior erro de juízo entre os homens!
Na igreja da Ajuda, a mais antiga do Brasil, António Vieira acusa também Deus, culpado de ajudar os invasores holandeses:
– Embora sejamos nós os pecadores, haveis de ser Vós, hoje, o arre­pendido!"

Eduardo Galeano, Memória do Fogo – Os Nascimentos (tradução de António Marques; no prelo)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

"O requerimento"

"1514, Rio Sinu.
Navegaram muito mar e muito tempo e estão fartos de calores, selvas e mosquitos. Cumprem, não obstante, as instruções do rei: não se pode atacar os indígenas sem requerer, antes, a sua subjugação. Santo Agostinho autoriza a guerra contra quem abuse da sua liberdade, porque na sua liberdade estariam em perigo não sendo domados; mas bem o diz Santo Isidoro que nenhuma guerra é justa sem prévia declaração.
Antes de se lançar sobre o ouro, grãos de ouro talvez do tamanho de ovos, o advogado Martín Fernández de Enciso lê com pontos e vírgulas o ultimato que o intérprete, aos tropeções, demorando-se na entrega, vai traduzindo.
Enciso fala em nome do rei D. Fernando e da rainha D. Juana, sua filha, domadores das gentes bárbaras. Faz saber aos índios do Sinu que Deus veio ao mundo e deixou em seu lugar S. Pedro, que S. Pedro tem como sucessor o Santo Padre e que o Santo Padre, Senhor do Universo, fez mercê ao rei de Castela de toda a terra das Índias e desta península.
Os soldados assam nas armaduras. Enciso letra miúda e sílaba lenta, exige aos índios que deixem estas terras, pois não lhes pertencem, e que, se quiserem continuar a viver aqui, paguem a suas Altezas tributo de ouro em sinal de obediência. O intérprete faz o que pode.
Os caciques escutam, sentados, sem pestanejar, o estranho personagem que lhes anuncia que em caso de negativa ou demora lhes fará guerra, os converterá em escravos bem como suas mulheres e filhos e como tais os venderá e deles disporá, e que as mortes e os danos dessa justa guerra não serão culpa dos espanhóis.
Respondem os caciques, sem olharem para Enciso, que muito generoso com o alheio tinha sido o Santo Padre, que devia estar bêbado quando dispôs do que não era seu, e que o rei de Castela é um atrevido, porque vem ameaçar quem não conhece.
Então, corre sangue.
Em seguida, o longo discurso se lerá em plena noite, sem intérprete e a meia légua das aldeias que serão assaltadas de surpresa. Os indígenas, adormecidos, não escutarão as palavras que os declaram culpados dos crimes cometidos contra eles."

Eduardo Galeano, Memória do Fogo – Os Nascimentos (tradução de António Marques; no prelo)

sábado, 9 de abril de 2011

"Hatuey"

"1511, Yara.
Nestas ilhas e nestes lugares de tortura, são muitos os que escolhem a morte, enforcando-se ou bebendo veneno junto de seus filhos. Os invasores não podem evitar esta vingança, mas sabem explicá-la: os índios, tão selvagens que pensam que tudo é natural, dirá Oviedo, são gente por natureza ociosa e viciosa, e de pouco trabalho... Muitos deles, como seu passatempo, mataram-se com veneno para não trabalhar, e outros enforcaram-se por suas próprias mãos.
Hatuey, chefe índio da região da Guahaba, não se suicidou. Em canoa fugiu de Haiti, juntamente com os seus, e refugiou-se nas covas e nos montes do oriente de Cuba.
Aí apontou para uma cesta cheia de ouro e disse:
- Este é o deus dos cristãos. Por ele nos perseguem. Por ele mataram os nossos pais e os nossos irmãos. Bailemos para ele. Se a nossa dança lhe agradar, este deus mandará que não nos maltratem.
Apanham-no três meses depois.
Atam-no a um pau.
Antes de acender o fogo que o reduziria a carvão e cinza, um sacerdote promete-lhe glória e eterno descanso se aceitar baptizar-se. Hatuey pergunta:
- Nesse céu, estão os cristãos?
- Sim
Hatuey escolhe o inferno e a lenha começa a crepitar."

Eduardo Galeano, Memória do Fogo – Os Nascimentos (tradução de António Marques; no prelo)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

"Morrem aqui, renascem ali"

"1677, Old Road Town.
Não o sabe o corpo, que pouco sabe, nem o sabe a alma que respira, mas sabe-o a alma que sonha, que é a que mais sabe: o negro que se mata na América ressuscita em África. Muitos escravos desta ilha de Saint Kitts deixam-se morrer negando-se a comer ou comendo não mais do que terra, cinza e cal; e outros atam-se uma corda ao pescoço. Nos bosques, entre as lianas que pendem dos grandes salgueiros-chorões, pendem escravos que não somente matam, ao matarem-se, a sua memória de dores; ao matarem-se também iniciam, em branca canoa, a viagem de regresso às terras de origem.
Um tal Bouriau, dono de plantações, anda na folhagem, machadinho na mão, decapitando enforcados:
– Pendurem-se, se quiserem! – adverte os vivos. – Lá nos vossos países não terão cabeça nem poderão ver, nem ouvir, nem falar, nem comer!
E outro proprietário, o mayor Crips, o mais duro castigador de homens, entra pelo bosque com uma carreta carregada de caldeiras de açúcar e peças de moinhos. Busca e encontra os seus escravos fugidos, que se reuniram e estão atando nós e escolhendo ramos, e diz-lhes:
– Continuem, continuem. Eu me enforcarei com vocês. Vou acompanhá-los. Comprei em África um grande engenho de açúcar, e lá vocês trabalharão para mim.
O mayor Crips escolhe a árvore maior, uma ceiba imensa; enlaça a corda à volta do seu próprio pescoço e enfia o nó corrediço. Os negros olham para ele, aturdidos, mas a sua cara é uma pura sombra por baixo do chapéu de palha, sombra que diz:
– Vamos, todos! Depressa! Preciso de braços na Guiné!"

Eduardo Galeano, Memória do Fogo – Os Nascimentos (tradução de António Marques; no prelo)

"Cláudia, a feiticeira"

"1674, Potosi.
Com a mão movia as nuvens e cantava ou afastava tormentos. Num abrir e fechar de olhos trazia gente de terras muito distantes e também da morte. A um corregedor das minas de Porco fez-lhe ver Madrid, a sua pátria, num espelho; e a dom Pedro de Ayamonte, que era de Utrera, serviu-lhe à mesa tortas recentemente feitas num forno de lá. Fazia brotar jardins nos desertos e tornava virgens as amantes mais sabidas. Salvava os perseguidos que buscavam refúgio em sua casa, transformando-os em cães e gatos. Ao mau tempo, boa cara, dizia, e à fome, guitarradas: tangia a viola e agitava a pandeireta e assim ressuscitava os tristes e os mortos. Podia dar aos mudos a fala e tirá-la aos charlatães. Fazia amor à intempérie, com um demónio mui negro, em pleno campo. A partir da meia-noite, voava.
Tinha nascido em Tucuman, e morreu, esta manhã, em Potosi. Em agonia chamou um padre jesuíta e disse-lhe que tirasse da gavetinha certos vultos de cera e lhes tirasse os alfinetes que tinham espetados, que assim se curariam cinco padres que ela tinha feito adoecer.
O sacerdote ofereceu-lhe confissão e misericórdia divina, mas ela riu-se e a rir morreu."

Eduardo Galeano, Memória do Fogo – Os Nascimentos (tradução de António Marques; no prelo)

domingo, 3 de abril de 2011

"Os serventes brancos"

"1666, Londres.
Três barcos cheios de serventes brancos deslizam pelo Tamisa rumo ao mar. Quando abrirem as suas comportas, na remota ilha de Barbados, os vivos marcharão para as plantações de açúcar, algodão e tabaco, e os mortos para o fundo da baía.
'Espíritos' se chamam os traficantes de serventes brancos, bem mágicos na arte de evaporar gente: enviam para as Antilhas as putas e os vagabundos sequestrados nos bairros baixos de Londres, os jovens católicos caçados na Irlanda e na Escócia e os presos que esperavam pela forca no cárcere de Bristol por terem matado um coelho em terras privadas. Armazenados à chave, nos porões dos barcos, acordam os emborrachados apanhados nos cais, e com eles viajam até às Américas algumas crianças atraídas com guloseimas e muitos aventureiros enganados pela promessa de fortuna fácil. Lá, nas plantações de Barbados ou da Jamaica ou da Virgínia, lhes espremerão o sumo até que tenham pago o seu preço e o preço da passagem.
Os serventes brancos sonham em tornarem-se donos de terras e de negros. Quando recuperam a sua liberdade, ao cabo dos anos de dura penitência e trabalho sem salário, a primeira coisa que fazem é comprar um negro que lhe abane o leque à hora da sesta.
Há quarenta mil escravos africanos em Barbados. Os nascimentos registam-se nos livros de contabilidade das plantações. Ao nascer, um negrito vale meia libra."

Eduardo Galeano, Memória do Fogo – Os Nascimentos (tradução de António Marques; no prelo)