quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Para depois do Natal





Mais duas edições para a série de livros de textos teatrais levados ao palco pela Companhia de Teatro de Almada. Duas propostas quase antagónicas (e daí, quem sabe, talvez não) que estreiam em Janeiro próximo: A Mãe de Bertold Brecht (com um agradecimento à Suhrkamp pela amável autorização de publicação) e Uma Visita Inoportuna, uma comédia frenética de Copi (ou Raul Damonte).

sábado, 19 de dezembro de 2009

Editor: uma imagem em metamorfose

Este post do ex-editor da Cavalo de Ferro Hugo Xavier suscita-me algumas reflexões sobre o papel do editor, sobretudo numa fase de transição do papel tradicional e confortável do gestor criativo de projectos literários produzidos no seio de uma empresa (leia-se, com subalternos ou colegas responsáveis pela execução das diversas tarefas técnicas decorrentes dessa gestão e das decisões daí derivadas) para o de (como no caso) editor disponível ou no "desemprego", uma associação que enferma de uma contradição interna, pois se há sector do mercado de trabalho que menos "empregos" (leia-se, contratos de trabalho em full time) tem gerado ou mantido esse será certamente o da edição (pago um almoço a quem me mostrar, nos jornais da próxima semana, um anúncio vindo de uma editora ou grupo editorial que não seja da "área comercial").

Frequentei uma dessas pós-graduações especializadas em edição (frequência da qual, diga-se, não me arrependo), mas durante todo o tempo em que a frequentei, e até depois, ela não pesou um grama nas entrevistas ou contactos que tive para "empregos" (leia-se agora, prestações de serviço a recibo verde) na área da edição. Isso tirou-me de vez as dúvidas sobre o hipotético valor de uma formação especializada em edição como chave de entrada nesse suposto "mercado" editorial (foi o meu momento "novas oportunidades", mas serviu, como tal, de experiência).

A conclusão a que chego, após quase 4 anos dentro do projecto Livros de Areia, é a de que o editor, o pequeno e médio editor que não tem business angels ou uma estrutura corporativa a sustentá-lo, tem de, literalmente, saber fazer o livro todo de montante a jusante: dos contactos com os agentes à preparação do material de promoção (press releases, blogues e websites), passando pela paginação e design do livro, da sua revisão e (quando necessário) tradução, tudo isto tem de voltar a ser a "massa" do editor, e não apenas a "escolha" de bons livros para a "sua" chancela. A cultura e a erudição dentro dos conteúdos já não chega. Há um exemplo histórico dessa necessidade urgente de retoma dos "meios de produção" (um termo marxista que fica bem em época de bailouts à banca neo-liberal): a criação da Hogarth Press por Leonard e Virginia Woolf, dois intelectuais que, em meses, e por extrema urgência de publicar o que achavam que devia ser publicado, aprenderam e dominaram uma tecnologia bem mais exigente fisicamente (imaginam Virginia Woolf com tinta preta no sabugo das unhas partidas?) do que a que, agora, envolve um rato e um teclado de plástico (leiam Leonard and Virginia Woolf as Publishers de J. H. Willis).

Se hoje posso usar o (cada vez mais vulgarizado e ridiculamente pomposo) título de "editor", e se hoje o projecto que me permite usar esse título ainda existe, sem condenações em tribunal por más práticas laborais ou má fé no tratamento a prestadores de serviços, sem dívidas ao Estado ou a qualquer outro credor e com uma conta bancária no verde, é porque tudo o que diz respeito à produção dos livros que por cá se podem ir fazendo – salvo uma ou outra tradução, duas encomendas pontuais de ilustrações e, obviamente, a impressão final – sai das mãos que dirigem esse projecto (às quais se juntaram algumas outras, a quem devemos um enorme agradecimento). Esse seria, pois, o "conselho" (palavra muito pesada, mas para a qual não me ocorre nenhum sinónimo mais adequado) que daria a quem quer experimentar isto de ser "editor": olhem menos para o J. Peterman do Seinfeld, de cachimbo permanentemente aceso enquanto debitava as suas ideias "geniais" aos assistentes (e olhem ainda menos para as notícias das "transferências" milionárias entre chancelas de holdings editoriais), e mais para um Leonard Woolf suado, de mangas arregaçadas, a tentar compor uma linha de tipos metálicos num componedor para um poema de T. S. Elliot numa cave em Londres durante a I Guerra Mundial. Não será a imagem mais glamorosa, mas, nesta iminente metamorfose da imagem do "editor" em época de recessão mundial e de tecnologia barata e acessível, parece-me ser a mais inspiradora.
(PM)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Desolação: duas imagens

Duas imagens de livros à venda (ou que já o tinham estado) que registei (ainda que não mecânica ou digitalmente, i.e., não tenho uma foto como testemunho) no início de Dezembro, e que me parecem ilustrar, infelizmente, um aparente fracasso de duas vias alternativas ao comércio de livros tradicional, ou seja, a venda em livrarias de pequena ou grande dimensão.
Na Rua Áurea, os restos da que foi durante uns meses a livraria da Cavalo de Ferro são uma triste prova da impossibilidade de recuperar um modelo "clássico" de comércio de livros: o da livraria de editora. Independentemente das contingências deste projecto em particular (e sobre elas não quero elaborar, nem posso dada a minha ignorância da matéria em causa), mete dó ver livros abandonados como se no momento anterior a um cataclismo em plena Baixa de Lisboa, as capas retorcidas e descoloradas pela exposição ao sol, pó por todo o lado, penumbra ao fundo.
Um dia depois, no corredor subterrâneo de acesso ao edifício principal da Estação de Campanhã. A azáfama dos passageiros que vão para as bilheteiras ou vêm destas para os comboios parece ignorar por completo uma máquina de venda de livros da Leya. A máquina ao lado, que vende guloseimas e bebidas, é disputada por 3 ou 4 miúdos, com uma agressividade que atrai um dos seguranças. Fico com a sensação de que se quisesse vandalizar a máquina da Leya estaria a fazer um favor a alguém, e o máximo que o segurança me perguntaria (se é que dava por isso) seria: "para quê?"
(PM)

sábado, 12 de dezembro de 2009

BURACOS NEGROS é um dos 52



O nosso único livro de 2009 (estávamos a contar com um ano de retoma, mas a crise obrigou a uma maior contenção) acaba de ser escolhido como um dos 52 livros do ano (um por cada semana) pela revista LER (edição de Dezembro, p. 55). BURACOS NEGROS de Lázaro Covadlo é um dos 52 títulos em destaque.
Apenas discordamos da frase de chamada na capa: "títulos que só deviam vender-se com receita médica. Porque são bons". Está na altura de se perceber que a qualidade literária (ou de edição) não exige obrigatoriamente sacrifícios por parte dos interessados: está acessível por pouco dinheiro e sem necessidade de "receitas". E se as livrarias a escondem ou devolvem após pouco tempo de exposição (se é que a expõem de todo...), então será a net a fazer chegar essa qualidade às mãos de quem a procura. Porque a qualidade é o prémio de quem é proactivo e curioso, e não de quem se queixa de que "não viu o livro na livraria". (Disclaimer: quem concluir que destas palavras se pode inferir que uma livraria pode ser um buraco negro, onde certos livros desaparecem mal chegam, deverá fazê-lo sem imputar-nos a responsabilidade dessa conclusão.)

sábado, 28 de novembro de 2009

PEC RIP

Tal como na lenda, o monstro parece estar prestes a morrer às mãos do seu criador. O Pagamento Especial por Conta, um dos melhores eufemismos para "roubo à mão armada" de que há memória (apenas igualado pelo recente "orçamento redistributivo"), pode ter, finalmente, os dias contados, se a vontade dos grupos parlamentares na oposição (encabeçados pelo PSD de Manuela Ferreira Leite, a criadora da coisa) passar da fase da "generalidade" para as discussões "específicas". Como o Estado a quem temos pago tantas centenas de Euros "por conta" não parece ter tido qualquer plano de redistribuição desse dinheiro na forma de apoios à edição ou à distribuição (a não ser que "autoestrada" seja sinónimo de política cultural), esta é uma excelente notícia, mesmo para pessimistas como nós que acreditam que em Portugal, e como diria Lavoisier, os monstros não morrem, transformam-se.
(PM)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Descontos radicais



Via A Namorada de Wittgenstein, descubro isto, que desconhecia de todo: edições da Mondadori em que o desconto é tão grande que atinge o título. E eis que quem procurasse 1984 de George Orwell saía com um exemplar de 1388,8... Segundo Maria João Freitas, o desconto extendia-se a títulos não numerários, o que cria um campo de possibilidades verdadeiramente bizarras. (Ou estamos a falar apenas de uma campanha publicitária?...) As coisas que uma editora poderosa consegue nas negociações de direitos...
(PM)

domingo, 15 de novembro de 2009

Vamos rasgar o livro

Há mais de 20 anos, costumava ouvir na Antena 1 um programa chamado O Dois do Quelhas. Ouvia-o apenas por uma razão: uma "rubrica" chamada, se não estou em erro, "Vamos Partir o Disco". Nela, o realizador Paulo Fernando punha a rodar 3 ou 4 faixas de um disco de música portuguesa e atrevia-se a algo que era absolutamente inédito então (e impensável agora, na era das playlists): recorrendo à lógica mais irredutível, analisava as letras de duvidosa qualidade das músicas e concluía, invariavelmente: “este disco é intocável mas, felizmente, não é inquebrável!” E quebrava o disco!
Lembrei-me disto ao ler alguns posts de um/a misterioso/a crítico/a online, que se esconde atrás de uma máscara e usa um chicote de forma certeira, muito ao estilo (perdoar-me-á ele/ela pela associação, mas faço-a como um elogio) do Paulo Fernando. Máscara&Chicote é mesmo o nome da coisa, e vale a pena ler este post sobre alguns dos livros publicados por uma das vanity presses da praça (no caso, do largo...). Pena é que não se possa ouvir, no fim, o som de um livro a ser rasgado.
(PM)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Adiados

Uma vez que se encontram ainda em trabalho de edição, e porque lançar livros à arena livreira de Dezembro nem os Romanos faziam, tanto A Simbólica do Espaço em O Senhor dos Anéis de Tolkien de Maria do Rosário Monteiro (lembramos: o primeiro ensaio sobre a obra-prima da literatura de fantasia escrito e publicado em Portugal) como Fome de Elise Blackwell serão adiados para depois da silly season das Festas e do Ano Novo.

A "lei" de Barnum

A propósito do fenómeno das vanity presses (editoras ou chancelas de editoras que publicam apenas na condição de os autores arcarem com todas as despesas da edição), que deu recentemente uma acesa polémica que pode ser seguida aqui e aqui (e sobre a qual não pretendemos alargar-nos), fica, à consideração e reflexão dos interessados, o excerto de um email vindo de um potencial "autor", que, já publicado anteriormente por uma dessas empresas, sente agora "algumas dificuldades" em publicar a sua restante produção:

"Depois disso escrevi mais seis romances, mas estou a experimentar algumas dificuldades na sua publicação devido à exigência das editoras para que sejam angariados patrocinadores que assumam uma parte das despesas. Por outro lado, também não tenho disponibilidades financeiras que me permitam arcar sózinho [sic] com esse encargo, pelo que estou actualmente em busca de uma editora que não faça depender a edição dessa exigência."

Pondo de parte questões não despiciendas como, por exemplo, a de saber quais são essas editoras (além das que já se sabe serem vanity presses) que exigem a um autor de obras de ficção que angarie patrocinadores(!), é importante que fique claro que, se há empresas de prestação de serviços editoriais que agem desta forma, tornando autores em clientes, isso se deve também à ilusão de milhares de pessoas que "gostam de escrever", "até têm jeito para escrever" ou (pior) já escreveram "uns romances", e que, em troca de 1 ou 2 exemplares impressos (pagos por elas, além do que já pagaram para serem "escolhidas") e de uma ténue esperança de 1 ou 2 semanas de exposição numa "livraria", entregam alguns milhares de euros a pessoas que consideram "editores" e, por associação, passam a considerar o acto de publicar ou ser publicado como uma mera transacção comercial e não como efeito de mérito e produto do esforço intelectual.

P. T. Barnum era empresário do circo e não cientista, mas não deixou de proferir uma das leis "oficiosas" sobre o comportamento humano mais continuamente provadas pela prática que se conhecem: there's one sucker born every minute (houve quem acrescentasse ao adágio: and two to take him), significando que os seus espectáculos (freak shows) de mulheres-barbudas e outras "maravilhas" não teriam qualquer sucesso sem o ingénuo entusiasmo de milhares de crédulos... e a hábil manipulação de sonhos por parte de "empresários" astutos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Critics, please get your insults right!

Um texto brilhante de Rhys Hughes sobre a subtil diferença entre "pretentious", "pompous" e "grandiose". Ao cuidado dos tradutores... e críticos da nossa praça.

Blogue de Emergência

A Saída de Emergência chegou finalmente aos blogues. O deles pode ser consultado aqui.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Panorama pálido, debate animado

Na sessão de dia 27 de "Com Todas as Letras", a série de debates que têm vindo a ser organizados pela Os Meus Livros e pela SPA, o editor Pedro Reisinho esteve, teremos de referi-lo, em clara desvantagem à partida. Na mesa com Luís Corte-Real (editor da Saída de Emergência) à sua esquerda e com David Soares e João Seixas à sua direita (respectivamente, autor e colaborador pontual da Saída de Emergência), o editor da Gailivro podia queixar-se de um alinhamento em seu desfavor neste debate sobre a edição de ficção científica, horror e fantástico. A seu favor, como todos o sabemos, os números dos tops e das vendas astronómicas.

Se bem que tenham aberto o debate em concordância, com uma leitura trágica das possibilidades de sucesso financeiro da edição de FC em Portugal (Reisinho terá mesmo confessado que a publicação de autores portugueses do género, como Telmo Marçal ou João Barreiros, é feita já com a expectativa de fraquíssimas vendas, quase uma edição de "caridade"), confessando ainda ambos que a FC que publicam é paga com as receitas das vendas de títulos de géneros bem mais rentáveis, a divergência entre os dois editores começou a tornar-se evidente. Mais directo e realista, Corte-Real via-se secundado pelas boas prestações de Soares e Seixas (que chegou a trazer uma pequena estatística que provava o real declínio da edição de FC por cá) na fixação de um panorama da publicação e da recepção nacionais aos géneros em causa. A desvantagem do alinhamento pesou então sobre Reisinho, que, acompanhado apenas de 2 exemplares de livros seus e recentemente lançados (um livro de contos de Telmo Marçal e um romance de Octávio dos Santos), se limitou à possível defesa do seu catálogo, mesmo quando a qualidade das obras de Stephanie Meyer, por exemplo, foi dura e repetidamente atacada tanto por David Soares como por João Seixas.

Por intermédio de uma pergunta vinda de um aluno de Belas-Artes na assistência (que foi compondo o auditório até quase o encher, uma boa surpresa para os pessimistas), a conversa orientou-se para a qualidade das capas e do grafismo na FC em Portugal, e aí uma certa impreparação de Reisinho foi subitamente notória: interrogado por mim quanto ao facto de a Gailivro ter colocado na capa do livro de Marçal uma imagem da série A Quinta Dimensão sem qualquer creditação ou menção da fonte da imagem (algo que eu descobrira e apontara aqui), o editor, além de confessar não saber que a imagem era da série, não se lembrava sequer de que essa menção não estava assinalada no livro. O meu argumento era (e é) que a "nobilitação" de um género passa também pela assunção de uma genealogia iconográfica e pela sua devida (e até orgulhosa) menção nos livros publicados. Apesar destas fraquezas na preparação para o debate, e de um alinhamento claramente desfavorável, creio, contudo, que Pedro Reisinho se defendeu de forma desportiva e, quando foi imperativo, sensata, ao reconhecer (perante a insistência de João Morales, o moderador) que a creditação na ficha técnica teria sido aconselhável no caso do livro de Marçal.

Em suma, um debate muito vivo, directo, alargado (poucas vezes me lembro de ouvir, neste tipo de evento übber-literários, uma tão boa discussão sobre o design editorial, no caso da FC), com boas intervenções do público (Ricardo Loureiro e António de Macedo, por exemplo). Talvez o pessimismo inicial dos dois editores na mesa, os líderes na publicação destes géneros em Portugal, possa ser revertido.
(PM)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

J. M. Coetzee sobre Hunger

"In Elise Blackwell’s original and engrossing short novel, Leningrad during the German siege forms the background for an exploration of love and betrayal, as well as for some richly sensual evocations of the pleasures of eating." J. M. Coetzee

Fome, de Elise Blackwell

"As pessoas faziam de tudo para darem de comer aos filhos. Vendiam o que era valioso e sentimental. Matavam e cozinham animais domésticos estimados. Prostituíam-se. Prostituíam as crianças que precisavam de ser alimentadas. Roubavam, eram coniventes e matavam. Faziam as mulheres passar fome. Elas próprias passavam à fome.

Tantas vezes, uma dúzia de vezes, foi-me dito o quão sortudo era por não ter filhos, como era mais fácil para nós, com poucas bocas para alimentar, não ter de ouvir os gritos horrorosos, não ter de ver aqueles que amamos mais do que tudo, aqueles que dependem somente de nós, a sofrer. Oh, a responsabilidade, diziam as pessoas. E eu pensava, oh, a claridade.

Eu ansiava pela lucidez da paternidade durante os maus tempos – talvez na mesma medida que Alena tinha ansiado pelo amor e o doce cheiro de um bebé antes de os tempos se tornarem maus.
O território moral sombrio no qual caminhava ter-se-ia tornado uma paisagem inteiramente diferente com crianças. Quem culpa um pai por roubar se é para alimentar o filho pequeno? Um pai diz a si próprio: eu faço o que tenho de fazer para que a minha criança sobreviva a este tempo. Os pais podem fazer tudo o que lhes aprouver e dizer: temos que ter a certeza de que os nossos filhos sobrevivem, e nós temos que sobreviver para cuidar deles.

Eu não me podia dar a esse luxo. Não importava se vivesse, nem mesmo para mim. Mas não podia suportar a dor que existia entre mim e a morte. Era essa fome cinzenta, e não a própria morte, que temia, que evitava a custo de toda a honra. Como os políticos mais inteligentes sabem e repetem, os ideais nada são para o homem que se senta a uma mesa vazia."

Dilemas morais e sobrevivência na Leninegrado sitiada de 1941-43, recordados, muitos anos depois e em Nova Iorque, por um cientista com um terrível segredo. Eis Fome, um livro de Elise Blackwell , de que J. M. Coetzee disse em 2003 ser um dos melhores livros que já lera. Para breve, com tradução de Safaa Dib.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A leitora que disse "chega"



"O ultimo livro de
Lázaro Covadlo, editado pela Livros de Areia, andava-me a perseguir desde o momento em que saiu. Naquela tarde disse 'chega', sentei-me e resolvi o assunto. É, sem qualquer dúvida, o melhor conjunto de contos que li nos últimos tempos." Quem escreveu estas linhas sobre BURACOS NEGROS foi a Eduarda Sousa no seu blogue, que teve ainda o amável descaramento de o recomendar ao Jorge Fallorca. E quem somos nós para dizer que a Eduarda não tem razão?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

J. R. R. Tolkien e a fantasia

"Um dos grandes impulsionadores do interesse pela fantasia foi J. R. R. Tolkien. Com a obra O Senhor dos Anéis, Tolkien colocou este subgénero literário num lugar de destaque dentro da produção ficcional contemporânea. Tolkien recupera não só o passado medieval cristão e as lendas antigas (como fizeram os românticos), mas vai mais longe, recuperando o passado mítico quer dos povos da Europa do Norte, quer dos celtas. Em 1954, nada fazia prever que uma narrativa que se baseava em textos míticos como o Kalevala ou as Eddas se tornasse num sucesso editorial que já dura há cinco décadas. O êxito imediato de O Senhor dos Anéis teve tanto de inesperado como de duradouro. Uma das consequências directas do sucesso foi o aparecimento, a partir de meados da década de sessenta, de um grande número de escritores que se dedicaram à fantasia. Muitos foram apenas imitadores menores de Tolkien, escritores sem a preparação cultural necessária para criarem verdadeira e inovadoramente dentro do subgénero literário. Outros, contudo, beneficiando do interesse comercial das editoras pelo fantástico, puderam publicar obras verdadeiramente criativas, explorando outras áreas do fantástico para além das desenvolvidas por Tolkien. Escritores como Michael Moorcock, Ursula K. Le Guin, Gene Wolfe, Roger Zelazny, entre outros, deram novos mundos à literatura fantástica contemporânea, inovando o género.

Um dos maiores problemas que um autor de literatura fantástica enfrenta (particularmente o do subgénero da fantasia) é o da comunicação efectiva da visão fantástica, o que faz com que o escritor seja obrigado a atender a um conjunto de regras estilístico-formais que raramente são alteradas. Para que uma visão fantástica possa ser comunicada, e não se reduza à expressão de uma mera ilusão ou sonho, é necessário que inclua elementos lógico-racionais que lhe dêem coerência interna e contribuam para a sensação de verosimilhança necessária para a participação do leitor nas aventuras narradas. Tendo em mente as regras que enquadram o género e evitam que uma obra caia na sucessão demente de acontecimentos irracionais, o autor tem ainda que dominar algumas técnicas narrativas e estético-literárias que caracterizam o subgénero, e que são:

1. A narrativa na terceira pessoa (preferencial, mas não obrigatória).
2. A presença de personagens com quem o leitor se identifique, fazendo, deste modo, com que ele participe na acção.
3. A inclusão de momentos de tensão seguidos de momentos de relaxamento.
4. A utilização de elementos fantásticos, impossíveis ou sobrenaturais, bem como de seres estranhos, míticos, lendários ou irreais que contribuem para a carga eminentemente simbólica da fantasia.
5. O recurso frequente a descrições pormenorizadas do espaço onde se desenrola a acção, para possibilitar uma «visualização» tão completa quanto possível do mundo imaginário.

A estas técnicas podem juntar-se outras recolhidas de géneros literários afins. O fantástico em geral, e a fantasia em particular, propõem visões alternativas e múltiplas do mundo e do homem. A carga mítico-simbólica presente nestas obras tende a apontar para um passado «mágico», o que não faz, necessariamente, com que as fantasias sejam meras nostalgias literárias, reaccionárias e escapistas. Através da recuperação e reelaboração de elementos histórico-culturais de épocas anteriores, juntamente com a activação de estruturas mentais específicas, as fantasias propõem o restabelecimento do equilíbrio psíquico perdido pela sobrevalorização da consciência e dos esquemas lógico-racionais que caracterizam a sociedade ocidental desde o século XVIII.

Ao contrário do que às vezes se pensa, a valorização da «visão fantástica» não tem por objectivo substituir a componente racional pela irracional. Não se pretende dar primazia às estruturas do inconsciente sobre as da consciência, nem tão pouco se propõe que, face aos limites evidentes das noções consensuais de realidade, estas sejam substituídas pela pura fantasia. A importância da consciência no funcionamento psíquico do homem moderno ocidental é um dado concreto inalienável, a causa primeira da sua evolução, e condição basilar da liberdade do indivíduo. As estruturas da consciência são fundamentais para o relacionamento do ser humano com o mundo que o rodeia e com os outros. Porém, a consciência não é função única no psiquismo humano, um compartimento estanque que permita ignorar tudo o resto. Do mesmo modo que o mundo não existe em função de uma espécie, a humanidade não partilha, na sua totalidade, da Weltanschauung ocidental. A realidade impõe a todo o momento o confronto com a heterogeneidade cultural, social, política, económica e religiosa como característica do mundo em que vivemos."

Excerto de A Problemática do Espaço em "O Senhor dos Anéis" de Maria do Rosário Monteiro (no prelo).

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O que o juiz vai ver (II)



MACBETH (1971)
Um filme sobre uma peça do Sr. Shakespeare em que nenhum dos actores usa collants e fala como o Sr. Olivier?... Crime de lesa-majestade! Bruxas velhas, sujas e nuas , Lady Macbeth... nua (jovem, mas infelizmente não adolescente... pena, podíamos apanhá-lo já aqui!), um Macbeth que mata mesmo e não se limita a falar sobre isso e nem uma cena com o Ian McKellen de barba branca... Culpado! (N.º de adolescentes violadas no filme: bem..., de facto... nenhuma)



WHAT? (1972)
Uma "comédia absurda" (como pode uma comédia ser absurda senão na cabeça de um pervertido? – anotar esta ideia para passar ao Procurador) baseada na Alice no País das Maravilhas em que uma jovem americana (adolescente??... pois, não...) foge a uma tentativa de violação (ahhh, começamos a ter algo...) se perde numa villa de degenerados (pronto, apanhámo-lo!)... mas passa o resto do filme a fugir de um Marcello Mastroianni meio impotente e no meio de outras personagens que não se interessam por ela... Pelo topete de fazer um filme onde nada se passa, e ainda por cima com música de Schubert, culpado! (N.º de adolescentes violadas no filme: a minha secretária está a trazer-me a contagem neste momento, é agora , é agora que o apanha... zero...)



CHINATOWN (1974)
Pelo simples topete de afirmar que a bela e muy justa cidade de Los Angeles é o produto da corrupção moral e da especulação imobiliária, este senhor já têm garantidos uns 99 anos de prisão, à minha conta (nota: negar ligações do meu avô ao escândalo de compra de terras "inúteis" nos anos 30, caso venham a público). De novo facas, que o Sr. Polanski introduz voluntária e deliberadamente na narina dessa instituição americana que é o Sr. Nicholson, o que lhe dará mais umas dezenas de anos de acumulação de pena. Falta apenas que me tragam a contagem das violações para fechar este caso, e nem preciso de ver mais nada... (N.º de adolescentes violadas no filme: zero)



O INQUILINO / THE TENANT (1976)
As coisas compõem-se: Polanski gosta de se vestir de mulher e este filme é a prova cabal (e, quanto a mim, final) disso mesmo. Também bate numa criança (nota: aconselhar a equipa de acusação a ignorar o facto de ele estar a, como se diz?, "representar" um esquizofrénico), fuma e deixa cair lixo no corredor quando o vai pôr à rua... Culpado! (N.º de adolescentes violadas no filme: pois, já sei, não muitas... quero dizer, nenhuma)

O que o juiz vai ver (I)

Com o perdão já concedido publicamente (no Larry King Live) pela então adolescente Samantha Geimer (e agora mãe de família que não deseja expor os seus filhos a este inferno), com dezenas de testemunhas abonatórias do carácter de Polanski por toda Los Angeles, com as provas da má condução do caso por parte do juiz Rittenband em 1977 reunidas no filme Polanski: Wanted and Desired, o juiz americano a quem cair este caso não terá outro remédio senão recorrer ao que a acusação fez há 30 anos: ver os filmes e procurar aí provas inabaláveis de culpa. Eis o que ele vai ver (e como):



FACA NA ÁGUA (1962)
Polanski gosta de facas. E de as meter na água (perversão!). Cobiça a mulher do próximo (e casada!) E usa uma linguagem estranha, que um americano médio não entende e que pode confundi-lo (um código secreto para uma invasão?) Veredicto: culpado! (N.º de adolescentes violadas no filme: zero)



REPULSA / REPULSION (1964)
Uma senhorita loira que anda semi-nua, de faca na mão, num apartamento com janelas abertas... (não esquecer de lembrar a Miss ... para não andar tão... à vontade com as janelas abertas... e para não usar o meu cartão de crédito, não vá a Mrs. ... descobrir) Sons de um "orgasmo", ruídos estranhos, um coelho podre, nem uma cena com a Doris Day... Culpado! (N.º de adolescentes violadas no filme: zero... hmm)



O BECO / CUL DE SAC (1966)
Um homem careca vestido de mulher... pela própria mulher! História esquisita, sem números musicais, a preto-e-branco (de novo!), com música jazz e ambiente "beatnik"... Disseram-me que era baseado nas obras dum tal de Beckett, irlandês, mas pensei que fosse uma boa comédia com a Maureen O'Hara e o John Wayne! Bons tempos os da cadeira eléctrica! Culpado! (N.º de adolescentes violadas no filme: zero... deixa-me contar de novo... não, é mesmo zero)



A SEMENTE DO DIABO / ROSEMARY'S BABY (1968)
O conselheiro espiritual da congregação libertou-me do pecado para que pudesse ver o filme, mas nem o consegui ver todo... A Sra. Mia Farrow a servir de concubina do Demo, quando era a esposa do Sr. Sinatra! Sacrilégio! T'arrenego, com toda a força investida em mim pela irmandade Mórmon! (nota: propor ao Governador a reinstauração dos Autos-da-Fé na Califórnia até ao final do ano). Culpado! (N.º de adolescentes violadas no filme... ao menos uma haverá, não?!: não acredito, ZERO!)

(Continua)

domingo, 27 de setembro de 2009

Cuckoo clocks

A Suíça, que baseou a sua riqueza em grande parte na apropriação das contas bancárias das famílias judias endinheiradas deportadas para os campos da morte pelos Nazis (e das contas criadas pelos próprios carrascos com esses fundos "alienados"), e tem feito fortuna continuada com o negócio do sigilo bancário, que permite douradas reformas a ditadores e extorsionários de farda por esse mundo fora, achou por bem assistir o sistema judiciário dos EUA, prendendo o realizador septuagenário Roman Polanski com base em acusações com 30 anos.

A "lógica" por detrás dessas acusações foi entretanto desmontada e explicada num documentário chamado Polanski: Wanted and Desired de Marina Zenovitch, que mostra como um juiz ultra-conservador (apesar de manter uma relação secreta com duas mulheres de 20 anos) e auto-proclamado "caçador de celebridades" quis fazer do "caso Polanski" o seu trampolim para a fama. O mesmo sistema judiciário que montou o espectáculo dos julgamentos de O.J. Simpson e Michael Jackson quer agora certamente "emendar-se" e provar que consegue pôr celebridades na cadeia.

Um indício de como, mais de 30 anos depois, a mentalidade puritana norte-americana (e canadiana, no caso) e tudo aquilo que Polanski supostamente representa para ela (a sofisticação europeia e o exotismo de um "artista maldito") não combinam está neste texto do site do Calgary Herald, a propósito da reedição em DVD de What? de 1972:

In October, a video of a little-seen 1972 Polanski film, called What?, is to be released. It's a comedy about an American girl locked in a Mediterranean villa and features scenes of gang rape and sodomy. Polanski himself is in the film. How could he not be?

Quem viu e conhece What?, produzido pelo maior produtor de Itália de então, Carlo Ponti, e que tinha como estrela Marcelo Mastroianni (e música de Schubert, A Donzela e a Morte), sabe que não há qualquer cena de violação ou sodomia no filme, uma das obras-primas da comédia absurda e melancólica, um género em que Polanski fez outro grande filme, Cul-de-Sac de 1966. Convém que alguém diga isto ao juiz que assumir o caso. As simplificações e deturpações só ficam mesmo bem quando um Harry Lime, pela boca de Orson Welles, as profere.
(PM)

Uma pergunta... antes do voto

Dentre os vários programas que vão mais logo a votos, poder-se-á extrair um parágrafo, uma linha, uma palavra que seja sobre a política e a estratégia de defesa do livro (não da ideia abstracta de livro, mas do produto da actividade editorial), da leitura e da Língua Portuguesa para os próximos tempos?