terça-feira, 24 de março de 2009

O filme a ver em 2009



Já tínhamos "colado" o primeiro excerto disponível no Youtube no nosso "velho" blogue, este é o segundo. O DVD já anda pela Amazon e pelo ebay. Obscene é um tributo a Barney Rosset, o extravagante criador da mais importante editora independente americana das décadas de 1950 a 1970, a Grove Press (hoje, após uma fusão, chamada Grove Atlantic), e o editor da Evergreen Review, bastiões da liberdade de expressão e da qualidade literária pelas quais uma certa vanguarda dos anos de 1960 ainda gera tanta admiração.

Reflexões sobre um Prémio

Não será despiciendo, antes da reflexão propriamente dita, começar por afirmar que a criação dos Prémios de Edição LER / Booktailors, no ano passado, se reveste de uma inegável importância, quanto mais não seja pela pura e simples ausência de algo remotamente semelhante até aí. A imprensa, que se desunha nas últimas 2 semanas de cada ano a escolher os "melhores" livros do ano a findar, jamais ocupa uma linha sequer com o processo que medeia entre a escrita e o contacto com o público leitor do livro já produzido, com a excepção dos erros da revisão ou da tradução. Tendo, nestes dois últimos anos, o espaço nos jornais e revistas dedicado à exegese da produção editorial (dos que ainda o têm) ficado substancialmente reduzido, é de esperar que este estado de coisas permaneça e se agrave. Neste contexto, a existência de qualquer coisa que procure dignificar e premiar os artesãos do livro é positiva, seja qual for o ângulo pelo qual se a aborde.

Mas vamos a esses ângulos. Muito simplesmente: creio, por observação feita ao longo da segunda metade de 2008 junto das livrarias, indagando directamente os livreiros sobre os Prémios e sobre a articulação destes com a agenda daqueles, que, se a intenção dos seus organizadores era transpor os limites estritamente mediáticos do evento (a LER é uma revista e os Booktailors são uma empresa que se faz representar através de um blogue) e levá-lo junto da comunidade mais alargada (e vital) dos compradores de livros e dos que os vendem, dever-se-á concluir que algo terá falhado nesta primeira edição dos Prémios. Até Dezembro de 2008, posso contar uns 2 livreiros (em lojas independentes e de cadeias) que tinham uma vaga ideia de "um Prémio de edição", mas de resto era a completa ignorância sobre o assunto, comprovada na ausência de quaisquer indicações gráficas no local (digamos, um equivalente impresso dos gifs que alguns blogues ostentaram apoiando os Prémios). Este panorama manteve-se após o anúncio das long lists. Sei que a intenção seria apenas envolver as livrarias por altura do anúncio dos prémios. Ora está aí precisamente a base do meu argumento: porque não envolvê-las já por altura das long lists, expondo numa área especial todos os livros listados, criando uma sinergia com os pontos de venda diária dos livros e, sobretudo, alargando a base de votos (através de "boletins de voto" ou folhetos com as capas envolvidas e as respectivas memórias descritivas enviadas pelos editores)? Trata-se, afinal, de um prémio com o apoio da revista LER, apoiada por seu lado pela Fundação Círculo de Leitores, entidades para as quais a divulgação activa do mesmo nos pontos de venda de livros seria algo perfeitamente (e financeiramente) exequível.

Sei que a intenção seria apenas envolver as livrarias por altura do anúncio dos prémios. Ora está aí precisamente a base do meu argumento: porque não envolvê-las já por altura das long lists, expondo numa área especial todos os livros listados, criando uma sinergia com os pontos de venda diária dos livros e, sobretudo, alargando a base de votos?

Não me lembro igualmente de uma secção especial ou um destacável na LER por altura das long lists, o que terá sido outro erro, limitando a um único local (um blogue) o acesso à informação sobre o Prémio e ao voto. Também o blogue pecou pela falta de informação sobre as diversas capas a concurso: na ficha de inscrição era pedida uma curta memória descritiva, que infelizmente não foi usada na divulgação dos projectos a concurso, privando os potenciais votantes de informação útil.

Um bom exemplo para edições futuras será a simplicidade com que Andrew Howard montou aquele que foi o maior acontecimento de 2008 no que toca ao design de livros em Portugal, a exposição GATEWAYS e a edição do seu catálogo. Funcionando também através de fichas de inscrição, a importância, no produto final, foi dada ao testemunho do designer através da memória descritiva, tanto na exposição como no catálogo: desta forma se dá deveras a palavra a quem faz e produz os livros. Um dos problemas da divulgação de eventos como a Gateways ou os Prémios LER/Booktailors é a absoluta iliteracia da nossa imprensa "especializada" no que toca ao design gráfico e/ou editorial. Nem um jornal ou revista possui uma coluna, mais ou menos regular, sobre o design dos livros ou das capas, usando, contudo, a reprodução destas de forma intensiva: na prova mais visível da existência de um livro, a capa, opera-se o milagre da invisibilidade quando se lê os textos que ladeiam a sua reprodução. Efeito da influência francófona há umas décadas (os franceses eram lendariamente pouco dados à importância das capas – apesar de um dos mais revolucionários designers de livros de sempre, Robert Massin, ser francês), essa iliteracia do design parece agora mais difícil de explicar numa imprensa que lê, se inspira e cita os jornais e revistas inglesas e americanas de referência, dada a perfeita consciência que ingleses e americanos sempre tiveram da importância do design dos livros. (Esse estado de coisas fez com que, ironicamente mas sem surpresas, a imprensa portuguesa quase ignorasse a exposição e, sobretudo, a excelente edição do Gateways, o unico livro produzido e publicado em Portugal no ano passado a receber um prémio do Type Directors Club de Nova Iorque).

Nem um jornal ou revista possui uma coluna, mais ou menos regular, sobre o design dos livros ou das capas, usando, contudo, a reprodução destas de forma intensiva: na prova mais visível da existência de um livro, a capa, opera-se o milagre da invisibilidade quando se lê os textos que ladeiam a sua reprodução.

Estas palavras partem de quem participou neste processo e, participando como editor e designer de um micro projecto, não esperava sequer ter 1 capa seleccionada, quanto mais 4, pelo que não são movidas por acinte, despeito ou ressabiamento: são apenas uma forma de lançar a discussão entre a comunidade. A produção gráfica de livros em Portugal é um trabalho ingrato (sujeito, quase sempre, a "propostas" em competição), sujeito a várias violações dos mais elementares princípios da ética e do direito do trabalho (escrevo com conhecimento de causa), anónimo para além da uma linha na ficha técnica, mal pago (o império do mais baixo orçamento) e totalmente ignorado por quem escreve sobre a edição, pelo que eventos como estes Prémios serão a única oportunidade presente de a nobilitar e lhe conceder um discurso próprio e articulado. Esperemos que o façam na sua segunda edição, que as livrarias sejam mais envolvidas desde o arranque (e, com elas, o público leitor que as frequenta) e que a imprensa dilua o transe autoral em que ainda vive e comece a conceber uma edição como um fruto de vários "autores", entre os quais o designer.
(PM)

Addendum: E, pegando no exemplo do catálogo Gateways, porque não pensar na edição anual de um pequeno volume com todos os projectos a concurso a partir das long lists, usando as memórias descritivas enviadas aquando da inscrição?

terça-feira, 17 de março de 2009

Buraco Negro #11

“Também recordo com nitidez as palavras da parteira quando me resgatou do interior da minha mãe: “este menino é um monstro!”, disse ela.

– Mas como podes acreditar que te lembras dessas palavras? Por favor, Félix, acabavas de nascer! O que tu dizes não concorda com a realidade – falava-me assim aquela psicóloga a que me levaram aos treze ou catorze anos. Falam sempre da realidade os doutorzecos. Sabem eles, por acaso, o que é a rea­lidade?

Não obstante, devo admitir que a parteira dizia a verdade: eu era um monstro. Ao nascer tinha cometido o erro de mostrar-me tal qual era, por isso no meu rosto de recém-nascido reflectiu-se o ódio acumulado (na etapa fetal) com que cheguei ao mundo, bem como toda a perversão da estirpe mais além dos meus progenitores; porque estou convencido que semelhante maldade vinha desde antepassados muito antigos, e essa emoção tão intensa e genuína teve, durante o período da minha gestação e desenvolvimento, tempo de sobra para formatar as minhas feições.
Imediatamente percebi que com aquela expressão na cara as coisas me correriam mal, mesmo muito mal, e foi essa a razão pela qual, com instintiva astúcia, compus uma careta que me fazia parecer um bom menino. Mantê-la dava-me muito trabalho, um esforço vigoroso, tenaz e continuado dos músculos faciais, mas não tinha outro remédio senão suster tal máscara se me queria proteger. Pelos vistos fiz o que devia fazer, e, mesmo assim, fi-lo bem.

– Claro que é um bebé lindo! – disse a auxiliar da parteira.

– Sim, sim, é verdade! É que, por momentos, pareceu-me muito feio – explicou a parteira.

Tinha ganho a minha primeira batalha, mas sabia que no futuro não podia afrouxar. E não afrouxei durante muito tempo, pelo menos não o fiz na presença dos outros.Permanecia sempre com os músculos tensos para evitar que as minhas feições recuperassem as suas formas originais. Semelhante esforço muscular acarretou ao meu organismo algumas indesejadas consequências, em especial no respeitante ao sistema digestivo: o trânsito de alimentos era lento, e, na última etapa, árduo e doloroso. Mas estava resignado, sabia que devia sacrificar alguma coisa para evitar que me descobrissem."

("Preparação para o Abismo", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Desconto de 12%


Por falar em selos, aqui fica um importante. Em compras no site e no nosso blogue (e apenas aí) garantimos um desconto de 12% em títulos com mais de 1 ano sobre a sua publicação. Como sempre, podem usar os links para a compra pelo Paypal (e se não aderiram ainda ao Paypal, sugerimos que o façam, pois agora não precisam sequer de um cartão de crédito, bastando uma simples conta bancária) ou enviar-nos a ficha de encomenda devidamente preenchida.

Selados



Esta capa parece ter caído no goto de algumas pessoas e, pronto, lá deu por si finalista dos Prémios LER / Booktailors numa das categorias a concurso (eram muitas). Pois obrigado a quem gostou, e esperemos que isto sirva para o que interessa: a procura do livro. Quando surgir tempo, serão escritas umas linhas sobre a capa aqui.




DO CÍRCULO DE VIENA À FILOSOFIA
ANALÍTICA CONTEMPORÂNEA

Coord. António Zilhão
14,00 12,32 €
Desconto de 12% (apenas em compra no nosso site ou blogue)


quinta-feira, 12 de março de 2009

Paralelos arrepiantes:
Naomi Klein e Jerzy Kosinski



O livro de Naomi Klein The Shock Doctrine, que transforma a dialética Keynesianismo-Friedmanianismo num thriller envolvente e explica a essência da vida política e económica mundial dos anos de 1950 ao presente, tem também o poder para transformar a leitura de outros livros à luz da sua teoria. Um desses livros é certamente Chance de Jerzy Kosinski, com o qual o seguinte parágrafo tem paralelos assustadores:

"Even if Pinochet understood little about inflation and interest rates, the technos spoke a language he did understand. Economics for them meant forces of nature that needed to be respected and obeyed because 'to act against nature is counter-productive and self-deceiving' [...]. Pinochet agreed: people, he once wrote, must submit to structure because 'nature shows us basic order and hierarchy are necessary.' [...]"
(Naomi Klein, The Shock Doctrine, 2008, p. 79)

Teria Milton Friedman lido a seguinte resposta do jardineiro Chance a uma pergunta sobre a crise económica e decidido pô-la em prática no Chile (o livro de Kosinki é de 1970)? A hipótese é arrepiante.

"– Num jardim, as coisas crescem... mas antes têm de decair. As árvores têm de perder as folhas para deixar que outras folhas cresçam, e para que elas próprias continuem a crescer mais sólidas, mais fortes e ainda mais altas. Algumas árvores morrem, mas outras mais novas vêm substituí-las. Os jardins precisam de muito cuidado. Mas quem gosta do seu jardim, gosta de trabalhar nele, e não se importa de esperar. E então, na estação certa, verá tudo a florir."
(Jerzy Kosinski, Chance, Livros de Areia, 2006, trad. Pedro Piedade Marques, p. 75-76)



CHANCE
de Jerzy Kosinski
14,50 12,76€
Desconto de 12% (apenas em compra no nosso site ou blogue)


quarta-feira, 11 de março de 2009

Os pássaros e as borboletas
voam em Maio

Ou como um escritor do Oregon (Bruce Holland Rogers) e outro de Lisboa (José Mário Silva) provam que as distâncias se encurtam através da micro-narrativa. Em Maio próximo, e em Lisboa, um encontro que esteve para acontecer no ano passado. Mais detalhes até lá por aqui.

terça-feira, 10 de março de 2009

Galeano na SIC



No próximo dia 18, Manuel Jorge Marmelo falará de Futebol: Sol e Sombra de Eduardo Galeano na SIC. Trata-se do programa Carlsberg Cup Show, um magazine englobado na parceria SIC/Carlsberg Cup para a época 2008/2009. Será perto da meia-noite, mas poderão sempre consultar o registo aqui.



FUTEBOL: SOL E SOMBRA
de Eduardo Galeano
12,00 10,56€
Desconto de 12% (apenas em compra no nosso site ou blogue)


domingo, 8 de março de 2009

Buraco Negro #10

“E com aquela cena terminava verdadeiramente a película, de modo que se acenderam as luzes por um curto momento, mas a ténue claridade artificial durou o suficiente para que Bernardo pudesse olhar à sua volta. Estavam na sala uns quantos homens mais, talvez dez ou doze, todos patéticos. E eu, como me verei, perguntou-se Bernardo.

As luzes voltaram a apagar-se e iniciou-se a projecção seguinte. No ecrã aparece um barco que navega mar adentro. Plano afastado: dia. Agora o barco aproxima-se da câmara: bom trabalho de zoom. O recorte do navio é muito parecido com o do Neptuno II. Agora vê-se, detalhadamente, o casco e pode ler-se o nome do navio: Neptuno II. É mesmo o Neptuno II? Sim, é isso que se lê. Então, o nosso barco foi utilizado para fazer um filme pornográfico!, descobriu Bernardo. Sorri e pensa como se divertirá Clara Luz quando ele lhe contar. Sequência dois: o barco está atracado; a câmara foca a coberta e mostra um homem e uma mulher que discutem com palavras azedas. Parecem-se com ele e com Clara Luz, são demasiado parecidos. Bernardo começa a mexer-se e pensa que a sua imaginação lhe está a pregar uma partida de mau gosto. Cuidado, nada de nervosismos, Bernardo! Calma, foi o que o médico te recomendou: sempre muita calma.

O barco atraca e no seguimento descem os passageiros; Bernardo vê-se a si próprio: está a sair do barco e na sua cara brilha a ira. A câmara foca Clara Luz, que está no convés, apoiada no corrimão, e observa como ele se afasta em passo rápido pelo molhe. Há lágrimas nos olhos de Clara Luz. Menos mal! Ela está arrependida, pensa Bernardo. De repente a câmara descobre um meio sorriso malévolo na cara da sua amante. Era mesmo ou é de novo a sua imaginação? Calma, Bernardo, muita calma.

Novas sequências: a câmara segue-o até ao posto fronteiriço, retrata-o no seu nervosismo enquanto espera a sua vez para passar para o outro lado da cancela e mostra-o com um gesto de contrariedade quando o guarda aceita a sua documentação. Vê-se agora no parque sentado no banco, por baixo da palmeira. Aparece o pretinho. Engraxa-lhe os sapatos. Condu-lo ao cinema, o mesmo cinema onde se encontra neste preciso momento. Isto é insólito, diz-se Bernardo. Decide que irá à bilheteira e que pedirá para falar com o dono do cinema para lhe exigir uma explicação, mas não consegue descolar-se da cadeira. Agora vê-se a si próprio sentado na cadeira. E uma nova sequência: outra vez o Neptuno II. A câmara foca o camarote que partilha com Clara Luz. Ali está ela. Apenas se encontra coberta por um robe transparente, desses que ele supõe venderem-se em lojas de lingerie para mulheres frívolas; de resto, está nua. E não está sozinha: há um homem."

("Buracos Negros", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Buraco Negro #9

“Antes da sua travessia pelo deserto, Silas Rodgers tinha publicado uma dúzia de crónicas e alguns ensaios menores. Talvez se lembrem de certas obras daquele período, sobretudo Xeque a Malaquias e O Relatório Netchaiev. Dizia-se que a sua prosa estava influenciada por Grannet e, especialmente, por Barragonostegui: “Folhas murchas que a terra absorverá; de tal lodo nova vida surgirá. Assim o nosso herói renasce das suas derrotas e empreende uma nova batalha”. Todavia, não teriam sido estes os que empurraram a sua caminhada para o deserto, antes, e mais provavelmente, Sodolt, Gurdjieff, e o Nietzsche de Assim Falou Zaratustra.

Em 1938, na madrugada de 6 de Janeiro, Silas Rodgers, farto dos ataques a que era submetido pela sociedade bem pensante e das críticas à sua forma de vida, partiu de S. Francisco em direcção ao Leste. Levava consigo as suas sete mulheres e os dezasseis filhos e filhas, netos e netas. Silas explicou à sua extensa família que se tratava de um safari espiritual: quando o grupo estivesse instalado no deserto, num local solitário, atrairia novos seguidores, assim como o vazio é codiciosamente cheio pelos elementos que o rodeiam. Até àquele momento, Silas Rodgers nunca tinha tido outros adeptos senão aqueles a quem estava ligado pelo sangue. O grupo viajava em seis carroções, cada um puxado por cinco cavalos. A caravana avançou durante três meses e finalmente deteve-se numa planície deserta entre o Nevada e o Utah. A ausência de vida era a maior imposição da paisagem: só areia e cactos e umas poucas matas de espinheiras; lagartixas, serpentes, escorpiões e ratos da noite, tristes e diminutos. “Aqui levantaremos o nosso reino”, ditou Silas Rodgers. Quando os seus quiseram saber o que comeriam, proclamou:

– A vida alimenta-se da vida: os cavalos, para começar, serão o nosso primeiro sustento, pois já não sairemos daqui até que nos venha buscar o nosso Prometido, o nosso Grã Senhor, que nos trará o futuro no seu carro de fogo. Entretanto, a nutritiva carne e o sangue dos cavalos alimentará os nossos corpos, que são as moradas das nossas almas imortais; desse modo, também os animais alcançarão a sua ração de glória no seio da Mente eterna.

Os seus filhos e mulheres escutavam Silas Rodgers com devota atenção, mas nem por isso compreendiam o significado das suas frases, embora tal inconveniente carecesse de importância: em mais de uma ocasião Silas Rodgers disse-lhes que a compreensão é supérflua. Seria sempre melhor que se mantivessem iluminados pela inocência, alheios a todo o entendimento. Muitas vezes advertiu contra qualquer especulação mental. O pensamento é a mãe de todas as dúvidas. Só a fé é útil.

– De qualquer maneira, uma vez que por aqui não há pastos, os equídeos não poderiam sobreviver. Mas como entrarão nos nossos corpos evitando que o sol os engula, continuarão vivendo dentro das nossas vidas.
”

("Herren Krisna, Fisher Kampf, Golden Raviolli", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)

Buraco Negro #8

“Quando fez dezoito anos foi à polícia e disse que se queria inscrever na instituição. Deram-lhe uns impressos para preencher, e, depois de os entregar com todos os dados, uma semana mais tarde recebeu uma carta em que o convocavam para uma entrevista.

O funcionário que o atendeu percebeu imediatamente que o candidato gaguejava em cada frase; também lhe chamou a atenção o constante abrir e fechar de olhos e os tiques da boca, mas mesmo assim seguiu com o interrogatório do costume. Ao perguntar-lhe porque queria ser agente da lei a resposta foi que queria sê-lo para servir o império da justiça e da ordem e poder levar a pistola à cintura, mas também porque desejava fazer parte de um corpo de homens disciplinados e com autoridade, onde reinasse a camaradagem. Nesse sentido, explicou, preferia que o deixassem fazer patrulhas com algum companheiro, pois sempre desejara ter um bom amigo com quem compartilhar o perigo e a aventura das ruas. Toda a vida ansiara pertencer a um grupo, disse, e voltou a repetir aquilo de desejar patrulhar acompanhado. Um bom amigo, um bom e valente amigo armado com pistola, como ele, insistiu. Dantes pensava que o melhor seria fazer patrulhas de moto, ainda que soubesse que os agentes íam dois a dois, aquilo parecia-lhe um pouco solitário em comparação com a visão agradável de um par de detectives partilhando o assento dianteiro de um automóvel, bebendo café de um termos e apoiando-se nos tiroteios. Fez este discurso todo de uma só vez, e até ao fim nunca mais se engasgou, mas tinha aumentado a frequência dos tiques. O funcionário escreveu qualquer coisa no papel do solicitante, depois deitou uma olhadela ao relógio de pulso e deu por terminada a entrevista.

Tão pouco o admitiram nas diferentes empresas de segurança onde se fora oferecer. Aos vinte e cinco anos decidiu actuar por sua própria conta e risco; julgava poder convencer quem o não aceitava demonstrando a sua aptidão para a vigilância: quando vissem do que era capaz de certeza lhe dariam um emprego de segurança efectivo, um uniforme, uma pistola e uma boina. Provisoriamente, utilizaria equipamento próprio: colocou no peito da camisa a estrela de xerife que guardava desde a infância; já não tinha o revólver de plástico, mas comprou uma pistola que era uma imitação perfeita das verdadeiras. Também comprou cartucheiras de autêntico couro e um cinturão largo com fivela de bronze. Calçou botas pretas, de borracha e cano alto, até aos joelhos, meteu as calças por dentro das botas, e assim equipado entrou nuns grandes armazéns para colaborar voluntariamente na segurança dos espaços de vendas.
”

("Muito Couro", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Buraco Negro #7

“Estava recostado na sua cama, que era a mesma dos primeiros anos. Meio corpo apoiado na cabeceira. Estava vestido com roupa de rua e calçado com os seus únicos sapatos de solas gastas. Deixava que o seu olhar, aparentemente vazio, derivasse pelo quarto.

A pintura das paredes descascara-se nos cantos, o friso que corre a poucos centímetros do ângulo com o tecto liso empalidecera por obra do tempo até se tornar quase invisível. Mas Emílio – auxiliado pela memória – conseguia ver com nitidez o coelho, a tartaruga, o ursinho, o gato e todos os outros animais que, há já tantos anos, pintara a sua defunta tia Elisa.

O coelho é o de Alice no País das Maravilhas e segura na sua mão o relógio de bolso. O gato pertence à mesma história: é o gato Cheshire, cujo sorriso (que a Emílio se afigurava diabólico) permanecia no ar sempre que o seu amo se desvanecia. Nem todos os animais são da mesma história. O ursinho,
por exemplo, donde saiu o ursinho? Da imaginação da finada tia Elisa, claro. Posteriormente todos os desenhos e pinturas que ela fez surgiram da sua imaginação… Será que a tartaruga é a mesma tartaruga artificial que imaginara Lewis Carroll? Quem sabe. O elefantezinho, sem ir mais longe, provém de outro conto: é o Dumbo. A tia Elisa baralhava as histórias: por vezes, misturava boas narrativas com outras muito fracas.

Mas o assunto é sério, disse-se Emílio. Acende um cigarro e verte um pouco de gin no copo. O assunto é sério e não se pode descurar; antes que o tempo assassino acabe de apagar o friso, ele deverá identificar que animais pertencem a Alice e quais as outras histórias. Desesperam-no essas identidades nebulosas, dão-lhe vontade de se pôr a chorar. Aliás, está a chorar, embora sem lágrimas. Bebe outro copo de gin e solta um soluço. Há quanto tempo se encontra assim, bebendo e soluçando? Talvez há um par de horas, crê. Identidades nebulosas… Pinturas nebulosas. Quando Emílio era menino as coisas eram muito claras e cada animal era o que era. A tia Elisa, que foi quem pintou o friso na parede, encarregou-se de lhe explicar quem era um e quem era outro.

A carta com a ameaça de penhora está na mesinha de cabeceira, pelo que o pior será abandonar esta casa que os seus avós construíram e, seguramente, os novos proprietários não respeitarão o friso de animais pintados pela tia Elisa: pintarão por cima e, de uma vez por todas, desaparecerá o sorriso do gato Cheshire.
”

("Mundossonho", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Buraco Negro #6

“Sobressaltava-se sempre ao ouvir o despertador. O aparelho tocava sempre quando Delia estava no sono mais profundo, esse que faz fronteira com a morte, acreditava ela. Mas essa crença não a atemorizava. Custava-lhe emergir daquela região pacífica e cálida. De segunda a sexta, às sete da manhã, lutava por resgatar de entre os lençóis a noção de si mesma: começava por perguntar-se onde estava. Descartava a casa da infância e os quartos de hotéis ou apartamentos em que tinha passado algumas semanas de férias. Quando por fim deixava a cama quase tinha recuperado a identidade. Depois era tudo mais fácil: o homem que dormia a seu lado era Jorge, seu marido. Tinham dois filhos, uma rapariga e um rapaz, e já estavam casados há oito anos. Jorge era um bom marido; um homem jovem, de aspecto agradável. Era apaixonado pelo seu trabalho, mas sabia ser carinhoso e divertido. Os filhos eram encantadores. Às vezes, Delia dizia que formavam uma boa família. A essa hora da manhã, sobretudo no Inverno, o quarto tinha um cheiro intenso. Era um odor pegajoso, corporal, muito tépido e muito íntimo, durava até ir para a casa-de-banho. Às sete e vinte começava a preparar o pequeno almoço e acordava Jorge e os filhos.

O autocarro escolar passava à porta às oito horas. Esperava-o com os filhos e não se ía embora até que eles subissem para o veículo. Cinco minutos depois apanhava o metro, e meia hora mais tarde entrava no emprego. Delia era secretária contabilista numa companhia de seguros. O melhor momento do dia – às onze – era a hora da sandes, que ela nunca comia – para manter a linha – mas ía ao bar da esquina e bebia um café sem açúcar. Ali podia aliviar a cabeça, costumava dizer, e ver caras diferentes como a do tipo solitário que aparentava uns trinta e cinco anos – da sua idade. Era magro e pálido, com entradas na testa como Jorge; ainda que Jorge tivesse o cabelo curto e bem penteado e o homem do bar o tivesse penteado para trás e sobre o comprido. Tinha um ar de antigo boémio, um poeta de mostruário. A essa hora bebia sempre uísque, nada de café nem nada de comer. Era impossível imaginá-lo a levar à boca um donut ou um croissant.

Em várias ocasiões ele surpreendeu-a a observá-lo. Ra­pi­damente Delia desviava o olhar, mas não podia evitar a vergonha de sentir-se apanhada. Outras vezes era ela que descobria o homem quando este a espiava. Certa manhã em que o bar estava muito cheio, e todas as mesas ocupadas, ele abordou-a para lhe perguntar se lhe permitia partilhar a sua. Delia vacilou um instante antes de aceder, e quando ele pediu o seu uísque atreveu-se a perguntar-lhe se esse era o seu pequeno almoço habitual.
”


("Cetim Vermelho", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)

Buraco Negro #5

“Noite após noite, eu evitava olhar na direcção da janela. Nunca apagava a luz, e por detrás daquele vidro a escuridão exterior era uma tela negra. Cerrava as pálpebras e tentava dormir, e, enquanto não chegava o sono, rezava.

Como me custava subtrair-me à vigília e encontrar refúgio na inconsciência do mais profundo dos sonos! Muitas noites de inverno sentia lá fora, girando em volta da casa, o gemido do vento. Em algumas ocasiões dava-me para imaginar que o vento sofria pelo seu próprio desamparo, por não lhe ser permitida a entrada nos lugares. Dava como certo que, de noite, qualquer ser, objecto ou elemento que estivesse à intempérie devia viver atormentado: de noite, o mundo exterior era um abismo terrível. Ao contrário, era tão cálido o meu quarto! Nas paredes de cor azul celeste, a mamã tinha pintado coelhinhos, girafas e elefantes. O céu sem nuvens também era azul, embora de um azul mais luminoso. Passeava os meus olhos por aquelas superfícies agradáveis e empenhava-me em afastá-los do negrume da janela desprovida de cortinas. Abraçava o meu ursinho gordalhufo, peludo e despreocupado, e então ele e eu submergíamos no amigável mundo existente debaixo dos lençóis. Mas ao fim de algum tempo tirava para fora a cabeça e não podia evitar que os meus olhos se fixassem na janela. Então, via esse rosto que cada noite assomava de um lado e se punha a espreitar. Era uma visão fugaz, pois o intruso, ao ver-se descoberto, voltava a esconder-se rapidamente entre as sombras do abismo. No entanto, ainda que não conseguisse descobrir a sua identidade, não podia deixar de ver o brilho ansioso dos seus olhos observadores. Por vezes, julguei também ver o seu braço, e o seu punho, segurando o relâmpago de uma lâmina de metal.

Nas primeiras noites gritei e chamei a minha mãe, mas deixei de o fazer ao fim de muitas reprimendas. Ela ameaçou apagar a luz se eu insistisse em inventar histórias; foi isso que ela disse.

Se alguma vez existiu algo ou alguém ali fora, eu esperei-o em vão, pois passaram muitos anos e nunca me veio procurar. Acabei convencendo-me que o que tinha julgado ver só existia na minha imaginação. Depois, tornei-me adulto e segui os trâmites traçados pela nossa espécie: casei-me e tive um filho. O meu filho também começou a ver todas as noites o rosto do espia por trás dos vidros da sua janela.
Certo entardecer saí de casa e fiquei à espera. O punhal que levava comigo daria cabo de qualquer um que tentasse assustar o meu filho. Passaram as horas e, por fim, espreitei à janela do quarto iluminado. Era enternecedor ver o meu filho abraçado ao seu ursinho de peluche. De imediato os seus olhos encontraram os meus e, antes que me pudesse esconder, nos seus consegui descobrir o terror.
”

("Nunca Apagava a Luz" [texto integral], in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

gente maiúscula em letras pequenas



há gente assim. ainda. gente maiúscula. e também há gente que, apesar de tocada por essa maiúscula gente, se deixa enrolar na espuma dos dias e adia os agradecimentos. ficam eles aqui, então, ainda que atrasados, a valter hugo mãe que, sem nunca nos ter conhecido, sem partilhar primos ou padrinhos connosco, está um belo dia no brasil, em fins de 2008, e olha para um livro e pensa em nós. e ao email em que no-lo conta junta, no livro que nos envia, um postal, para que não esqueçamos. que há gente assim. maiúscula.
PS: o livro é Rasif - mar que arrebenta, com bela prosa de Marcelino Freire e edição da Record.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Buraco Negro #4

“– Creio que nos poderá ser útil – disse o senhor Marcial Mercante, e essa palavra pareceu a Adalberto a mais bonita que há muito escutara: útil, ser útil, servir para alguma coisa! – Precisamos de pessoas metódicas e cuidadosas – continuou a explicar o senhor Director-adjunto – uma vez que esta é uma empresa de centralização e, por esse motivo, o nosso objectivo é ter o maior controlo sobre tudo o que nos rodeia. Já se sabe que não existe controlo possível sem ordem, método e organização. Como disse que se chama?
– Arisamendi, senhor. Adalberto Arisamendi.
– Pois, claro… mas reparei que o senhor é coxo.
– É verdade, senhor – reconheceu Adalberto, não sem se ruborizar. – Falta-me o pé direito.
– Bom, pois então terá de modificar o seu apelido.
– Perdão, senhor?
– Disse que terá de modificar o seu apelido. Não pretenderá chamar-se do mesmo modo que quando estava completo, faltando-lhe um pé! Tal coisa seria contrária ao espírito de precisão desta casa.
– Peço desculpa, senhor, mas não percebi.
– Mas, é muito fácil! – disse Marcial Mercante, demonstrando ter uma grande paciência, mas sem se esforçar por dissimular uma certa irritação. – Quando o senhor nasceu registaram-no no Registo Civil como Adalberto Arasamendi, mas nessa altura o senhor deveria ter o corpo inteiro. Um corpo pequeno, de recém-nascido, claro, mas com todos os seus membros nos respectivos lugares. Pois bem, faltando-lhe um bocado o senhor mingou, por consequência isso deve constar nos nossos ficheiros e computadores, caso contrário daria lugar a possíveis confusões. Faço-me entender? Mas não se preocupe, amigo, tão pouco é tanto o que lhe falta: a ausência de um pé não é demasiado grave no conjunto de um corpo. Repito: não se preocupe. Só lhe retiraremos o último i do seu apelido: em vez de Arisamendi ficará Arisamend. Não fica mal de todo, não é verdade?
– Compreendo – aceitou Adalberto, em parte aliviado por acabar com o mal-entendido. – Mas permita-me assinalar-lhe que tenho uma prótese no lugar do pé em falta.
– Devia ter-me dito! – exclamou o senhor Marcial Mercante, golpeando a testa com a palma da mão. – Isso assim é outra coisa! Desse modo o senhor chamar-se-á Arisamend, hífen, i – e escreveu num papel: Arisamend-i. Este i separado é o registo da existência da sua prótese. Na CENTRACEN, querido amigo, está tudo registado.
”

("Ninguém Desaparece Completamente", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

"Conteúdos reprováveis"

O blogue da Frenesi, que leio regularmente desde 2006, foi assinalado como contendo "conteúdos reprováveis", e qualquer visitante tem agora de assumir que, apesar disso, pretende entrar e ler. Aparentemente, alguém se incomodou com textos honestos e furiosos (na justa medida), muito boas crónicas de Jorge Fallorca, excelentes excertos de livros e genitália feminina (e alguma masculina: até aí a justa medida se comprova). Talvez os mesmos que vociferam contra o papão do "anonimato", esse terrível monstro que uma mínima capacidade de gestão de blogues consegue controlar e moderar (ou eliminar).

Foi nesse blogue que descobri um dos melhores livros que li em 2008, o Business of Books de André Schiffrin. E foi nesse blogue que me decidi a nova encomenda na Amazon, desta vez de Shock Doctrine de Naomi Klein, dada a qualidade dos excertos que Paulo da Costa Domingos decidiu colocar online. Isto é serviço público a quem quer alargar a sua cultura, o que está longe de ser reprovável nestes tempos em que a redução da mesma parece ser o plano geral.

Se mais não fosse, essa é a razão pela qual fica aqui a recomendação: passem por lá, se ainda não o fizeram. O papão não existe, e se existe, não está ali.
(PM)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Buraco Negro #3

“Um mês mais tarde Ángel apareceu em enormes out­doors publicitários e nos ecrãs dos televisores. Passava trinta segundos cada vinte minutos em todos os canais e nas horas de maior audiência, sempre nos braços de um homem jovem e sorridente, um macho verdadeiramente interessante: o seu olhar expressava inteligência e sensibilidade. Ángel, gordinho e ufano, estava completamente nu. Nus estavam também o torso e os braços do homem. Braços muito bronzeados e musculados. Nos ante-braços só a penugem suficiente, a da virilidade. Ángel sorria, o homem sorria, e os dois inundavam o mundo de ternura. As mãos do homem revelavam força e benevolência, eram mãos que pareciam ter sido esculpidas por Rodin. Com a direita sustinha delicadamente a cabeça do bebé; na esquerda segurava um frasco de champô. O contraste era absoluto; a mensagem também. A pergunta evidenciava: ainda crês que não existem homens maternais? A continua­ção enunciava as bondades da linha de produtos de higiene para bebés.

Durante muitos dias Alícia e Rodrigo permaneceram fiéis ao ecrã de televisão. Durante muitos dias detiveram-se em frente dos painéis de publicidade das ruas para contemplar o enorme cartaz com o seu filhinho e o homem maternal. Rodrigo olhava fixamente para Ángel; Alícia passeava o olhar entre o seu bebé e o modelo que o sustinha nos braços.

Os familiares e os amigos do casal mostravam-se encantados: que riquezinha, Ángel, com essa carinha e esse rabinho ao léu! Toda a gente esperava vê-lo rapidamente noutro anúncio, mas passaram-se as semanas e os meses sem que a agência voltasse a requisitar a sua participação. O homem que o segurara nos braços continuava a aparecer na televisão: num spot encarnava um cliente de um banco; vestia fato e gravata e proclamava as vantagens de um determinado crédito hipotecário. Só aparecia quinze segundos, e não ia mal, mas Alícia gostara mais quando ele tinha feito de papá de Ángel. Não podia evitar compará-lo com Rodrigo, e de cada vez que os via juntos, pai e filho, ela desviava o olhar. Conheceu Rodrigo no bairro. Foram muito tempo simplesmente amigos até que por fim ficaram noivos. Alícia tinha uma amiga que se tinha casado com um norueguês; isso parecia muito interessante. Quase toda a gente se casava com gente das redondezas: pessoas do bairro, do trabalho ou da escola. Poucas, muito poucas raparigas se casavam com noruegueses: que ela soubesse, só a sua amiga. Unir-se a alguém diferente – ainda que não fosse norueguês – deveria ser uma aventura, pensava Alícia. Sempre que ouvia algum bolero saltavam-lhe essas ideias à cabeça. Os boleros agradavam-lhe.
”

("O Outro Pai", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)

sábado, 24 de janeiro de 2009

Buraco Negro #2

“Quando jovem, o vagabundo devia ter sido um tipo vigoroso, já que se teve de cavar mais de metro e meio até encontrar o primeiro dos esqueletos. O outro encontrava-se imediatamente por baixo. Carne e pele já não existiam; apenas uns farrapos de roupa. Os três homens rodeavam agora a cova e olhavam em silêncio aqueles restos.

Estavam os três exaustos e suados; tinham-se revesado com a única pá. O velho deveria ter estado à beira de desmaiar, pois obrigaram-no também a cavar, mas, tendo em conta a sua idade, não parecia encontrar-se demasiado cansado. A sombra fresca de um reduzido número de eucaliptos cobria-os; entre a ramagem, agitavam-se pássaros. Reyes pensou que, quando a tragédia ocorreu, haveria outros pássaros, mas as árvores estavam tão viçosas como antes, quando ele e Alonso ainda não tinham nascido. Reyes costumava pôr-se pensativo em situações como aquela, embora por pouco tempo.

– E onde foi que te escondeste?

O vagabundo apontou em direcção a um pinheiro alto situado a uns vinte metros, por trás de um espesso matagal. Reyes pensou que o pinheiro já lá deveria estar, ainda que mais jovem, mas o matagal teria outra forma. Alonso deu umas voltas em torno dos eucaliptos. No meio dos cardos encontrou a garrafa de vinho; ainda conservava o rótulo, e embora a tinta se encontrasse esborratada e apagada, podiam ler-se as maiúsculas da marca e os números do ano da colheita: 1946. Levantou a garrafa para que Reyes a visse. Olha o que encontrei, Reyes, disse.
”

("Quando a tarde cai", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Buraco Negro #1

Buracos Negros, uma colectânea de contos de Lázaro Covadlo, o autor de Criaturas da Noite, será a nossa próxima publicação, ainda durante o 1.º trimestre de 2009. Doze contos a que correspondem outros tantos "buracos negros", uma Quinta Dimensão muito própria a este autor argentino. Eis um excerto do primeiro.
Atenção: não deve ser oferecido a crianças ou a pobres de espírito, com o risco da multiplicação e aceleração da entropia universal!

“No dia em que Gómez se fez cortar a cabeça para que fosse oferecida ao nosso Presidente, este tinha-lhe enviado umas horas antes a bandeja. Não era de ouro; era só uma bandeja de prata. O certo é que o desempenho de Gómez na sua função ministerial sempre fora algo medíocre. No entanto, dizem que se comportou como um valente no último instante, e quando lhe propuseram injectar-lhe o habitual tranquilizante desdenhou-o com galhardia. Fez a barba, tomou banho e ensaboou a consciência, para deixar o corpo bem limpo. Lavou muito bem o cabelo, e, chegado o momento, colocou o pescoço no cepo e, em tom firme, deu a voz de comando:

– Proceda – disse ao seu assistente.

O pobre homem tinha os olhos lacrimejantes, mas obedeceu sem que lhe tremesse a mão que empunhava o machado. Baixou-a com força, e de um só e certeiro golpe separou a cabeça do tronco. Quando o seu chefe ficou dividido em dois, limpou o sangue e colocou a oferenda na bandeja. Antes, passou o pente pelo cabelo de Gómez, que se tinha desalinhado.

Martínez, cujo labor na Secretaria de Propaganda do Estado fora brilhante, mereceu uma bandeja de ouro. Também ele foi valente, dizem. Antes de se fazer degolar esteve um par de horas a arranjar o bigode fininho. Agora tem uma estátua na Praça da Liberdade.”

("Em Honra do Bom Serviço", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)