“Antes da sua travessia pelo deserto, Silas Rodgers tinha publicado uma dúzia de crónicas e alguns ensaios menores. Talvez se lembrem de certas obras daquele período, sobretudo Xeque a Malaquias e O Relatório Netchaiev. Dizia-se que a sua prosa estava influenciada por Grannet e, especialmente, por Barragonostegui: “Folhas murchas que a terra absorverá; de tal lodo nova vida surgirá. Assim o nosso herói renasce das suas derrotas e empreende uma nova batalha”. Todavia, não teriam sido estes os que empurraram a sua caminhada para o deserto, antes, e mais provavelmente, Sodolt, Gurdjieff, e o Nietzsche de Assim Falou Zaratustra.
Em 1938, na madrugada de 6 de Janeiro, Silas Rodgers, farto dos ataques a que era submetido pela sociedade bem pensante e das críticas à sua forma de vida, partiu de S. Francisco em direcção ao Leste. Levava consigo as suas sete mulheres e os dezasseis filhos e filhas, netos e netas. Silas explicou à sua extensa família que se tratava de um safari espiritual: quando o grupo estivesse instalado no deserto, num local solitário, atrairia novos seguidores, assim como o vazio é codiciosamente cheio pelos elementos que o rodeiam. Até àquele momento, Silas Rodgers nunca tinha tido outros adeptos senão aqueles a quem estava ligado pelo sangue. O grupo viajava em seis carroções, cada um puxado por cinco cavalos. A caravana avançou durante três meses e finalmente deteve-se numa planície deserta entre o Nevada e o Utah. A ausência de vida era a maior imposição da paisagem: só areia e cactos e umas poucas matas de espinheiras; lagartixas, serpentes, escorpiões e ratos da noite, tristes e diminutos. “Aqui levantaremos o nosso reino”, ditou Silas Rodgers. Quando os seus quiseram saber o que comeriam, proclamou:
– A vida alimenta-se da vida: os cavalos, para começar, serão o nosso primeiro sustento, pois já não sairemos daqui até que nos venha buscar o nosso Prometido, o nosso Grã Senhor, que nos trará o futuro no seu carro de fogo. Entretanto, a nutritiva carne e o sangue dos cavalos alimentará os nossos corpos, que são as moradas das nossas almas imortais; desse modo, também os animais alcançarão a sua ração de glória no seio da Mente eterna.
Os seus filhos e mulheres escutavam Silas Rodgers com devota atenção, mas nem por isso compreendiam o significado das suas frases, embora tal inconveniente carecesse de importância: em mais de uma ocasião Silas Rodgers disse-lhes que a compreensão é supérflua. Seria sempre melhor que se mantivessem iluminados pela inocência, alheios a todo o entendimento. Muitas vezes advertiu contra qualquer especulação mental. O pensamento é a mãe de todas as dúvidas. Só a fé é útil.
– De qualquer maneira, uma vez que por aqui não há pastos, os equídeos não poderiam sobreviver. Mas como entrarão nos nossos corpos evitando que o sol os engula, continuarão vivendo dentro das nossas vidas.”
("Herren Krisna, Fisher Kampf, Golden Raviolli", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Buraco Negro #8
“Quando fez dezoito anos foi à polícia e disse que se queria inscrever na instituição. Deram-lhe uns impressos para preencher, e, depois de os entregar com todos os dados, uma semana mais tarde recebeu uma carta em que o convocavam para uma entrevista.
O funcionário que o atendeu percebeu imediatamente que o candidato gaguejava em cada frase; também lhe chamou a atenção o constante abrir e fechar de olhos e os tiques da boca, mas mesmo assim seguiu com o interrogatório do costume. Ao perguntar-lhe porque queria ser agente da lei a resposta foi que queria sê-lo para servir o império da justiça e da ordem e poder levar a pistola à cintura, mas também porque desejava fazer parte de um corpo de homens disciplinados e com autoridade, onde reinasse a camaradagem. Nesse sentido, explicou, preferia que o deixassem fazer patrulhas com algum companheiro, pois sempre desejara ter um bom amigo com quem compartilhar o perigo e a aventura das ruas. Toda a vida ansiara pertencer a um grupo, disse, e voltou a repetir aquilo de desejar patrulhar acompanhado. Um bom amigo, um bom e valente amigo armado com pistola, como ele, insistiu. Dantes pensava que o melhor seria fazer patrulhas de moto, ainda que soubesse que os agentes íam dois a dois, aquilo parecia-lhe um pouco solitário em comparação com a visão agradável de um par de detectives partilhando o assento dianteiro de um automóvel, bebendo café de um termos e apoiando-se nos tiroteios. Fez este discurso todo de uma só vez, e até ao fim nunca mais se engasgou, mas tinha aumentado a frequência dos tiques. O funcionário escreveu qualquer coisa no papel do solicitante, depois deitou uma olhadela ao relógio de pulso e deu por terminada a entrevista.
Tão pouco o admitiram nas diferentes empresas de segurança onde se fora oferecer. Aos vinte e cinco anos decidiu actuar por sua própria conta e risco; julgava poder convencer quem o não aceitava demonstrando a sua aptidão para a vigilância: quando vissem do que era capaz de certeza lhe dariam um emprego de segurança efectivo, um uniforme, uma pistola e uma boina. Provisoriamente, utilizaria equipamento próprio: colocou no peito da camisa a estrela de xerife que guardava desde a infância; já não tinha o revólver de plástico, mas comprou uma pistola que era uma imitação perfeita das verdadeiras. Também comprou cartucheiras de autêntico couro e um cinturão largo com fivela de bronze. Calçou botas pretas, de borracha e cano alto, até aos joelhos, meteu as calças por dentro das botas, e assim equipado entrou nuns grandes armazéns para colaborar voluntariamente na segurança dos espaços de vendas.”
("Muito Couro", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
O funcionário que o atendeu percebeu imediatamente que o candidato gaguejava em cada frase; também lhe chamou a atenção o constante abrir e fechar de olhos e os tiques da boca, mas mesmo assim seguiu com o interrogatório do costume. Ao perguntar-lhe porque queria ser agente da lei a resposta foi que queria sê-lo para servir o império da justiça e da ordem e poder levar a pistola à cintura, mas também porque desejava fazer parte de um corpo de homens disciplinados e com autoridade, onde reinasse a camaradagem. Nesse sentido, explicou, preferia que o deixassem fazer patrulhas com algum companheiro, pois sempre desejara ter um bom amigo com quem compartilhar o perigo e a aventura das ruas. Toda a vida ansiara pertencer a um grupo, disse, e voltou a repetir aquilo de desejar patrulhar acompanhado. Um bom amigo, um bom e valente amigo armado com pistola, como ele, insistiu. Dantes pensava que o melhor seria fazer patrulhas de moto, ainda que soubesse que os agentes íam dois a dois, aquilo parecia-lhe um pouco solitário em comparação com a visão agradável de um par de detectives partilhando o assento dianteiro de um automóvel, bebendo café de um termos e apoiando-se nos tiroteios. Fez este discurso todo de uma só vez, e até ao fim nunca mais se engasgou, mas tinha aumentado a frequência dos tiques. O funcionário escreveu qualquer coisa no papel do solicitante, depois deitou uma olhadela ao relógio de pulso e deu por terminada a entrevista.
Tão pouco o admitiram nas diferentes empresas de segurança onde se fora oferecer. Aos vinte e cinco anos decidiu actuar por sua própria conta e risco; julgava poder convencer quem o não aceitava demonstrando a sua aptidão para a vigilância: quando vissem do que era capaz de certeza lhe dariam um emprego de segurança efectivo, um uniforme, uma pistola e uma boina. Provisoriamente, utilizaria equipamento próprio: colocou no peito da camisa a estrela de xerife que guardava desde a infância; já não tinha o revólver de plástico, mas comprou uma pistola que era uma imitação perfeita das verdadeiras. Também comprou cartucheiras de autêntico couro e um cinturão largo com fivela de bronze. Calçou botas pretas, de borracha e cano alto, até aos joelhos, meteu as calças por dentro das botas, e assim equipado entrou nuns grandes armazéns para colaborar voluntariamente na segurança dos espaços de vendas.”
("Muito Couro", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
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domingo, 15 de fevereiro de 2009
Buraco Negro #7
“Estava recostado na sua cama, que era a mesma dos primeiros anos. Meio corpo apoiado na cabeceira. Estava vestido com roupa de rua e calçado com os seus únicos sapatos de solas gastas. Deixava que o seu olhar, aparentemente vazio, derivasse pelo quarto.
A pintura das paredes descascara-se nos cantos, o friso que corre a poucos centímetros do ângulo com o tecto liso empalidecera por obra do tempo até se tornar quase invisível. Mas Emílio – auxiliado pela memória – conseguia ver com nitidez o coelho, a tartaruga, o ursinho, o gato e todos os outros animais que, há já tantos anos, pintara a sua defunta tia Elisa.
O coelho é o de Alice no País das Maravilhas e segura na sua mão o relógio de bolso. O gato pertence à mesma história: é o gato Cheshire, cujo sorriso (que a Emílio se afigurava diabólico) permanecia no ar sempre que o seu amo se desvanecia. Nem todos os animais são da mesma história. O ursinho, por exemplo, donde saiu o ursinho? Da imaginação da finada tia Elisa, claro. Posteriormente todos os desenhos e pinturas que ela fez surgiram da sua imaginação… Será que a tartaruga é a mesma tartaruga artificial que imaginara Lewis Carroll? Quem sabe. O elefantezinho, sem ir mais longe, provém de outro conto: é o Dumbo. A tia Elisa baralhava as histórias: por vezes, misturava boas narrativas com outras muito fracas.
Mas o assunto é sério, disse-se Emílio. Acende um cigarro e verte um pouco de gin no copo. O assunto é sério e não se pode descurar; antes que o tempo assassino acabe de apagar o friso, ele deverá identificar que animais pertencem a Alice e quais as outras histórias. Desesperam-no essas identidades nebulosas, dão-lhe vontade de se pôr a chorar. Aliás, está a chorar, embora sem lágrimas. Bebe outro copo de gin e solta um soluço. Há quanto tempo se encontra assim, bebendo e soluçando? Talvez há um par de horas, crê. Identidades nebulosas… Pinturas nebulosas. Quando Emílio era menino as coisas eram muito claras e cada animal era o que era. A tia Elisa, que foi quem pintou o friso na parede, encarregou-se de lhe explicar quem era um e quem era outro.
A carta com a ameaça de penhora está na mesinha de cabeceira, pelo que o pior será abandonar esta casa que os seus avós construíram e, seguramente, os novos proprietários não respeitarão o friso de animais pintados pela tia Elisa: pintarão por cima e, de uma vez por todas, desaparecerá o sorriso do gato Cheshire.”
("Mundossonho", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
A pintura das paredes descascara-se nos cantos, o friso que corre a poucos centímetros do ângulo com o tecto liso empalidecera por obra do tempo até se tornar quase invisível. Mas Emílio – auxiliado pela memória – conseguia ver com nitidez o coelho, a tartaruga, o ursinho, o gato e todos os outros animais que, há já tantos anos, pintara a sua defunta tia Elisa.
O coelho é o de Alice no País das Maravilhas e segura na sua mão o relógio de bolso. O gato pertence à mesma história: é o gato Cheshire, cujo sorriso (que a Emílio se afigurava diabólico) permanecia no ar sempre que o seu amo se desvanecia. Nem todos os animais são da mesma história. O ursinho, por exemplo, donde saiu o ursinho? Da imaginação da finada tia Elisa, claro. Posteriormente todos os desenhos e pinturas que ela fez surgiram da sua imaginação… Será que a tartaruga é a mesma tartaruga artificial que imaginara Lewis Carroll? Quem sabe. O elefantezinho, sem ir mais longe, provém de outro conto: é o Dumbo. A tia Elisa baralhava as histórias: por vezes, misturava boas narrativas com outras muito fracas.
Mas o assunto é sério, disse-se Emílio. Acende um cigarro e verte um pouco de gin no copo. O assunto é sério e não se pode descurar; antes que o tempo assassino acabe de apagar o friso, ele deverá identificar que animais pertencem a Alice e quais as outras histórias. Desesperam-no essas identidades nebulosas, dão-lhe vontade de se pôr a chorar. Aliás, está a chorar, embora sem lágrimas. Bebe outro copo de gin e solta um soluço. Há quanto tempo se encontra assim, bebendo e soluçando? Talvez há um par de horas, crê. Identidades nebulosas… Pinturas nebulosas. Quando Emílio era menino as coisas eram muito claras e cada animal era o que era. A tia Elisa, que foi quem pintou o friso na parede, encarregou-se de lhe explicar quem era um e quem era outro.
A carta com a ameaça de penhora está na mesinha de cabeceira, pelo que o pior será abandonar esta casa que os seus avós construíram e, seguramente, os novos proprietários não respeitarão o friso de animais pintados pela tia Elisa: pintarão por cima e, de uma vez por todas, desaparecerá o sorriso do gato Cheshire.”
("Mundossonho", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Buraco Negro #6
“Sobressaltava-se sempre ao ouvir o despertador. O aparelho tocava sempre quando Delia estava no sono mais profundo, esse que faz fronteira com a morte, acreditava ela. Mas essa crença não a atemorizava. Custava-lhe emergir daquela região pacífica e cálida. De segunda a sexta, às sete da manhã, lutava por resgatar de entre os lençóis a noção de si mesma: começava por perguntar-se onde estava. Descartava a casa da infância e os quartos de hotéis ou apartamentos em que tinha passado algumas semanas de férias. Quando por fim deixava a cama quase tinha recuperado a identidade. Depois era tudo mais fácil: o homem que dormia a seu lado era Jorge, seu marido. Tinham dois filhos, uma rapariga e um rapaz, e já estavam casados há oito anos. Jorge era um bom marido; um homem jovem, de aspecto agradável. Era apaixonado pelo seu trabalho, mas sabia ser carinhoso e divertido. Os filhos eram encantadores. Às vezes, Delia dizia que formavam uma boa família. A essa hora da manhã, sobretudo no Inverno, o quarto tinha um cheiro intenso. Era um odor pegajoso, corporal, muito tépido e muito íntimo, durava até ir para a casa-de-banho. Às sete e vinte começava a preparar o pequeno almoço e acordava Jorge e os filhos.
O autocarro escolar passava à porta às oito horas. Esperava-o com os filhos e não se ía embora até que eles subissem para o veículo. Cinco minutos depois apanhava o metro, e meia hora mais tarde entrava no emprego. Delia era secretária contabilista numa companhia de seguros. O melhor momento do dia – às onze – era a hora da sandes, que ela nunca comia – para manter a linha – mas ía ao bar da esquina e bebia um café sem açúcar. Ali podia aliviar a cabeça, costumava dizer, e ver caras diferentes como a do tipo solitário que aparentava uns trinta e cinco anos – da sua idade. Era magro e pálido, com entradas na testa como Jorge; ainda que Jorge tivesse o cabelo curto e bem penteado e o homem do bar o tivesse penteado para trás e sobre o comprido. Tinha um ar de antigo boémio, um poeta de mostruário. A essa hora bebia sempre uísque, nada de café nem nada de comer. Era impossível imaginá-lo a levar à boca um donut ou um croissant.
Em várias ocasiões ele surpreendeu-a a observá-lo. Rapidamente Delia desviava o olhar, mas não podia evitar a vergonha de sentir-se apanhada. Outras vezes era ela que descobria o homem quando este a espiava. Certa manhã em que o bar estava muito cheio, e todas as mesas ocupadas, ele abordou-a para lhe perguntar se lhe permitia partilhar a sua. Delia vacilou um instante antes de aceder, e quando ele pediu o seu uísque atreveu-se a perguntar-lhe se esse era o seu pequeno almoço habitual.”
("Cetim Vermelho", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
O autocarro escolar passava à porta às oito horas. Esperava-o com os filhos e não se ía embora até que eles subissem para o veículo. Cinco minutos depois apanhava o metro, e meia hora mais tarde entrava no emprego. Delia era secretária contabilista numa companhia de seguros. O melhor momento do dia – às onze – era a hora da sandes, que ela nunca comia – para manter a linha – mas ía ao bar da esquina e bebia um café sem açúcar. Ali podia aliviar a cabeça, costumava dizer, e ver caras diferentes como a do tipo solitário que aparentava uns trinta e cinco anos – da sua idade. Era magro e pálido, com entradas na testa como Jorge; ainda que Jorge tivesse o cabelo curto e bem penteado e o homem do bar o tivesse penteado para trás e sobre o comprido. Tinha um ar de antigo boémio, um poeta de mostruário. A essa hora bebia sempre uísque, nada de café nem nada de comer. Era impossível imaginá-lo a levar à boca um donut ou um croissant.
Em várias ocasiões ele surpreendeu-a a observá-lo. Rapidamente Delia desviava o olhar, mas não podia evitar a vergonha de sentir-se apanhada. Outras vezes era ela que descobria o homem quando este a espiava. Certa manhã em que o bar estava muito cheio, e todas as mesas ocupadas, ele abordou-a para lhe perguntar se lhe permitia partilhar a sua. Delia vacilou um instante antes de aceder, e quando ele pediu o seu uísque atreveu-se a perguntar-lhe se esse era o seu pequeno almoço habitual.”
("Cetim Vermelho", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
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Buraco Negro #5
“Noite após noite, eu evitava olhar na direcção da janela. Nunca apagava a luz, e por detrás daquele vidro a escuridão exterior era uma tela negra. Cerrava as pálpebras e tentava dormir, e, enquanto não chegava o sono, rezava.
Como me custava subtrair-me à vigília e encontrar refúgio na inconsciência do mais profundo dos sonos! Muitas noites de inverno sentia lá fora, girando em volta da casa, o gemido do vento. Em algumas ocasiões dava-me para imaginar que o vento sofria pelo seu próprio desamparo, por não lhe ser permitida a entrada nos lugares. Dava como certo que, de noite, qualquer ser, objecto ou elemento que estivesse à intempérie devia viver atormentado: de noite, o mundo exterior era um abismo terrível. Ao contrário, era tão cálido o meu quarto! Nas paredes de cor azul celeste, a mamã tinha pintado coelhinhos, girafas e elefantes. O céu sem nuvens também era azul, embora de um azul mais luminoso. Passeava os meus olhos por aquelas superfícies agradáveis e empenhava-me em afastá-los do negrume da janela desprovida de cortinas. Abraçava o meu ursinho gordalhufo, peludo e despreocupado, e então ele e eu submergíamos no amigável mundo existente debaixo dos lençóis. Mas ao fim de algum tempo tirava para fora a cabeça e não podia evitar que os meus olhos se fixassem na janela. Então, via esse rosto que cada noite assomava de um lado e se punha a espreitar. Era uma visão fugaz, pois o intruso, ao ver-se descoberto, voltava a esconder-se rapidamente entre as sombras do abismo. No entanto, ainda que não conseguisse descobrir a sua identidade, não podia deixar de ver o brilho ansioso dos seus olhos observadores. Por vezes, julguei também ver o seu braço, e o seu punho, segurando o relâmpago de uma lâmina de metal.
Nas primeiras noites gritei e chamei a minha mãe, mas deixei de o fazer ao fim de muitas reprimendas. Ela ameaçou apagar a luz se eu insistisse em inventar histórias; foi isso que ela disse.
Se alguma vez existiu algo ou alguém ali fora, eu esperei-o em vão, pois passaram muitos anos e nunca me veio procurar. Acabei convencendo-me que o que tinha julgado ver só existia na minha imaginação. Depois, tornei-me adulto e segui os trâmites traçados pela nossa espécie: casei-me e tive um filho. O meu filho também começou a ver todas as noites o rosto do espia por trás dos vidros da sua janela.
Certo entardecer saí de casa e fiquei à espera. O punhal que levava comigo daria cabo de qualquer um que tentasse assustar o meu filho. Passaram as horas e, por fim, espreitei à janela do quarto iluminado. Era enternecedor ver o meu filho abraçado ao seu ursinho de peluche. De imediato os seus olhos encontraram os meus e, antes que me pudesse esconder, nos seus consegui descobrir o terror.”
("Nunca Apagava a Luz" [texto integral], in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
Como me custava subtrair-me à vigília e encontrar refúgio na inconsciência do mais profundo dos sonos! Muitas noites de inverno sentia lá fora, girando em volta da casa, o gemido do vento. Em algumas ocasiões dava-me para imaginar que o vento sofria pelo seu próprio desamparo, por não lhe ser permitida a entrada nos lugares. Dava como certo que, de noite, qualquer ser, objecto ou elemento que estivesse à intempérie devia viver atormentado: de noite, o mundo exterior era um abismo terrível. Ao contrário, era tão cálido o meu quarto! Nas paredes de cor azul celeste, a mamã tinha pintado coelhinhos, girafas e elefantes. O céu sem nuvens também era azul, embora de um azul mais luminoso. Passeava os meus olhos por aquelas superfícies agradáveis e empenhava-me em afastá-los do negrume da janela desprovida de cortinas. Abraçava o meu ursinho gordalhufo, peludo e despreocupado, e então ele e eu submergíamos no amigável mundo existente debaixo dos lençóis. Mas ao fim de algum tempo tirava para fora a cabeça e não podia evitar que os meus olhos se fixassem na janela. Então, via esse rosto que cada noite assomava de um lado e se punha a espreitar. Era uma visão fugaz, pois o intruso, ao ver-se descoberto, voltava a esconder-se rapidamente entre as sombras do abismo. No entanto, ainda que não conseguisse descobrir a sua identidade, não podia deixar de ver o brilho ansioso dos seus olhos observadores. Por vezes, julguei também ver o seu braço, e o seu punho, segurando o relâmpago de uma lâmina de metal.
Nas primeiras noites gritei e chamei a minha mãe, mas deixei de o fazer ao fim de muitas reprimendas. Ela ameaçou apagar a luz se eu insistisse em inventar histórias; foi isso que ela disse.
Se alguma vez existiu algo ou alguém ali fora, eu esperei-o em vão, pois passaram muitos anos e nunca me veio procurar. Acabei convencendo-me que o que tinha julgado ver só existia na minha imaginação. Depois, tornei-me adulto e segui os trâmites traçados pela nossa espécie: casei-me e tive um filho. O meu filho também começou a ver todas as noites o rosto do espia por trás dos vidros da sua janela.
Certo entardecer saí de casa e fiquei à espera. O punhal que levava comigo daria cabo de qualquer um que tentasse assustar o meu filho. Passaram as horas e, por fim, espreitei à janela do quarto iluminado. Era enternecedor ver o meu filho abraçado ao seu ursinho de peluche. De imediato os seus olhos encontraram os meus e, antes que me pudesse esconder, nos seus consegui descobrir o terror.”
("Nunca Apagava a Luz" [texto integral], in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
gente maiúscula em letras pequenas

há gente assim. ainda. gente maiúscula. e também há gente que, apesar de tocada por essa maiúscula gente, se deixa enrolar na espuma dos dias e adia os agradecimentos. ficam eles aqui, então, ainda que atrasados, a valter hugo mãe que, sem nunca nos ter conhecido, sem partilhar primos ou padrinhos connosco, está um belo dia no brasil, em fins de 2008, e olha para um livro e pensa em nós. e ao email em que no-lo conta junta, no livro que nos envia, um postal, para que não esqueçamos. que há gente assim. maiúscula.
PS: o livro é Rasif - mar que arrebenta, com bela prosa de Marcelino Freire e edição da Record.
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Buraco Negro #4
“– Creio que nos poderá ser útil – disse o senhor Marcial Mercante, e essa palavra pareceu a Adalberto a mais bonita que há muito escutara: útil, ser útil, servir para alguma coisa! – Precisamos de pessoas metódicas e cuidadosas – continuou a explicar o senhor Director-adjunto – uma vez que esta é uma empresa de centralização e, por esse motivo, o nosso objectivo é ter o maior controlo sobre tudo o que nos rodeia. Já se sabe que não existe controlo possível sem ordem, método e organização. Como disse que se chama?
– Arisamendi, senhor. Adalberto Arisamendi.
– Pois, claro… mas reparei que o senhor é coxo.
– É verdade, senhor – reconheceu Adalberto, não sem se ruborizar. – Falta-me o pé direito.
– Bom, pois então terá de modificar o seu apelido.
– Perdão, senhor?
– Disse que terá de modificar o seu apelido. Não pretenderá chamar-se do mesmo modo que quando estava completo, faltando-lhe um pé! Tal coisa seria contrária ao espírito de precisão desta casa.
– Peço desculpa, senhor, mas não percebi.
– Mas, é muito fácil! – disse Marcial Mercante, demonstrando ter uma grande paciência, mas sem se esforçar por dissimular uma certa irritação. – Quando o senhor nasceu registaram-no no Registo Civil como Adalberto Arasamendi, mas nessa altura o senhor deveria ter o corpo inteiro. Um corpo pequeno, de recém-nascido, claro, mas com todos os seus membros nos respectivos lugares. Pois bem, faltando-lhe um bocado o senhor mingou, por consequência isso deve constar nos nossos ficheiros e computadores, caso contrário daria lugar a possíveis confusões. Faço-me entender? Mas não se preocupe, amigo, tão pouco é tanto o que lhe falta: a ausência de um pé não é demasiado grave no conjunto de um corpo. Repito: não se preocupe. Só lhe retiraremos o último i do seu apelido: em vez de Arisamendi ficará Arisamend. Não fica mal de todo, não é verdade?
– Compreendo – aceitou Adalberto, em parte aliviado por acabar com o mal-entendido. – Mas permita-me assinalar-lhe que tenho uma prótese no lugar do pé em falta.
– Devia ter-me dito! – exclamou o senhor Marcial Mercante, golpeando a testa com a palma da mão. – Isso assim é outra coisa! Desse modo o senhor chamar-se-á Arisamend, hífen, i – e escreveu num papel: Arisamend-i. Este i separado é o registo da existência da sua prótese. Na CENTRACEN, querido amigo, está tudo registado.”
("Ninguém Desaparece Completamente", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
– Arisamendi, senhor. Adalberto Arisamendi.
– Pois, claro… mas reparei que o senhor é coxo.
– É verdade, senhor – reconheceu Adalberto, não sem se ruborizar. – Falta-me o pé direito.
– Bom, pois então terá de modificar o seu apelido.
– Perdão, senhor?
– Disse que terá de modificar o seu apelido. Não pretenderá chamar-se do mesmo modo que quando estava completo, faltando-lhe um pé! Tal coisa seria contrária ao espírito de precisão desta casa.
– Peço desculpa, senhor, mas não percebi.
– Mas, é muito fácil! – disse Marcial Mercante, demonstrando ter uma grande paciência, mas sem se esforçar por dissimular uma certa irritação. – Quando o senhor nasceu registaram-no no Registo Civil como Adalberto Arasamendi, mas nessa altura o senhor deveria ter o corpo inteiro. Um corpo pequeno, de recém-nascido, claro, mas com todos os seus membros nos respectivos lugares. Pois bem, faltando-lhe um bocado o senhor mingou, por consequência isso deve constar nos nossos ficheiros e computadores, caso contrário daria lugar a possíveis confusões. Faço-me entender? Mas não se preocupe, amigo, tão pouco é tanto o que lhe falta: a ausência de um pé não é demasiado grave no conjunto de um corpo. Repito: não se preocupe. Só lhe retiraremos o último i do seu apelido: em vez de Arisamendi ficará Arisamend. Não fica mal de todo, não é verdade?
– Compreendo – aceitou Adalberto, em parte aliviado por acabar com o mal-entendido. – Mas permita-me assinalar-lhe que tenho uma prótese no lugar do pé em falta.
– Devia ter-me dito! – exclamou o senhor Marcial Mercante, golpeando a testa com a palma da mão. – Isso assim é outra coisa! Desse modo o senhor chamar-se-á Arisamend, hífen, i – e escreveu num papel: Arisamend-i. Este i separado é o registo da existência da sua prótese. Na CENTRACEN, querido amigo, está tudo registado.”
("Ninguém Desaparece Completamente", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
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terça-feira, 27 de janeiro de 2009
"Conteúdos reprováveis"
O blogue da Frenesi, que leio regularmente desde 2006, foi assinalado como contendo "conteúdos reprováveis", e qualquer visitante tem agora de assumir que, apesar disso, pretende entrar e ler. Aparentemente, alguém se incomodou com textos honestos e furiosos (na justa medida), muito boas crónicas de Jorge Fallorca, excelentes excertos de livros e genitália feminina (e alguma masculina: até aí a justa medida se comprova). Talvez os mesmos que vociferam contra o papão do "anonimato", esse terrível monstro que uma mínima capacidade de gestão de blogues consegue controlar e moderar (ou eliminar).
Foi nesse blogue que descobri um dos melhores livros que li em 2008, o Business of Books de André Schiffrin. E foi nesse blogue que me decidi a nova encomenda na Amazon, desta vez de Shock Doctrine de Naomi Klein, dada a qualidade dos excertos que Paulo da Costa Domingos decidiu colocar online. Isto é serviço público a quem quer alargar a sua cultura, o que está longe de ser reprovável nestes tempos em que a redução da mesma parece ser o plano geral.
Se mais não fosse, essa é a razão pela qual fica aqui a recomendação: passem por lá, se ainda não o fizeram. O papão não existe, e se existe, não está ali.
(PM)
Foi nesse blogue que descobri um dos melhores livros que li em 2008, o Business of Books de André Schiffrin. E foi nesse blogue que me decidi a nova encomenda na Amazon, desta vez de Shock Doctrine de Naomi Klein, dada a qualidade dos excertos que Paulo da Costa Domingos decidiu colocar online. Isto é serviço público a quem quer alargar a sua cultura, o que está longe de ser reprovável nestes tempos em que a redução da mesma parece ser o plano geral.
Se mais não fosse, essa é a razão pela qual fica aqui a recomendação: passem por lá, se ainda não o fizeram. O papão não existe, e se existe, não está ali.
(PM)
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Buraco Negro #3
“Um mês mais tarde Ángel apareceu em enormes outdoors publicitários e nos ecrãs dos televisores. Passava trinta segundos cada vinte minutos em todos os canais e nas horas de maior audiência, sempre nos braços de um homem jovem e sorridente, um macho verdadeiramente interessante: o seu olhar expressava inteligência e sensibilidade. Ángel, gordinho e ufano, estava completamente nu. Nus estavam também o torso e os braços do homem. Braços muito bronzeados e musculados. Nos ante-braços só a penugem suficiente, a da virilidade. Ángel sorria, o homem sorria, e os dois inundavam o mundo de ternura. As mãos do homem revelavam força e benevolência, eram mãos que pareciam ter sido esculpidas por Rodin. Com a direita sustinha delicadamente a cabeça do bebé; na esquerda segurava um frasco de champô. O contraste era absoluto; a mensagem também. A pergunta evidenciava: ainda crês que não existem homens maternais? A continuação enunciava as bondades da linha de produtos de higiene para bebés.
Durante muitos dias Alícia e Rodrigo permaneceram fiéis ao ecrã de televisão. Durante muitos dias detiveram-se em frente dos painéis de publicidade das ruas para contemplar o enorme cartaz com o seu filhinho e o homem maternal. Rodrigo olhava fixamente para Ángel; Alícia passeava o olhar entre o seu bebé e o modelo que o sustinha nos braços.
Os familiares e os amigos do casal mostravam-se encantados: que riquezinha, Ángel, com essa carinha e esse rabinho ao léu! Toda a gente esperava vê-lo rapidamente noutro anúncio, mas passaram-se as semanas e os meses sem que a agência voltasse a requisitar a sua participação. O homem que o segurara nos braços continuava a aparecer na televisão: num spot encarnava um cliente de um banco; vestia fato e gravata e proclamava as vantagens de um determinado crédito hipotecário. Só aparecia quinze segundos, e não ia mal, mas Alícia gostara mais quando ele tinha feito de papá de Ángel. Não podia evitar compará-lo com Rodrigo, e de cada vez que os via juntos, pai e filho, ela desviava o olhar. Conheceu Rodrigo no bairro. Foram muito tempo simplesmente amigos até que por fim ficaram noivos. Alícia tinha uma amiga que se tinha casado com um norueguês; isso parecia muito interessante. Quase toda a gente se casava com gente das redondezas: pessoas do bairro, do trabalho ou da escola. Poucas, muito poucas raparigas se casavam com noruegueses: que ela soubesse, só a sua amiga. Unir-se a alguém diferente – ainda que não fosse norueguês – deveria ser uma aventura, pensava Alícia. Sempre que ouvia algum bolero saltavam-lhe essas ideias à cabeça. Os boleros agradavam-lhe.”
("O Outro Pai", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
Durante muitos dias Alícia e Rodrigo permaneceram fiéis ao ecrã de televisão. Durante muitos dias detiveram-se em frente dos painéis de publicidade das ruas para contemplar o enorme cartaz com o seu filhinho e o homem maternal. Rodrigo olhava fixamente para Ángel; Alícia passeava o olhar entre o seu bebé e o modelo que o sustinha nos braços.
Os familiares e os amigos do casal mostravam-se encantados: que riquezinha, Ángel, com essa carinha e esse rabinho ao léu! Toda a gente esperava vê-lo rapidamente noutro anúncio, mas passaram-se as semanas e os meses sem que a agência voltasse a requisitar a sua participação. O homem que o segurara nos braços continuava a aparecer na televisão: num spot encarnava um cliente de um banco; vestia fato e gravata e proclamava as vantagens de um determinado crédito hipotecário. Só aparecia quinze segundos, e não ia mal, mas Alícia gostara mais quando ele tinha feito de papá de Ángel. Não podia evitar compará-lo com Rodrigo, e de cada vez que os via juntos, pai e filho, ela desviava o olhar. Conheceu Rodrigo no bairro. Foram muito tempo simplesmente amigos até que por fim ficaram noivos. Alícia tinha uma amiga que se tinha casado com um norueguês; isso parecia muito interessante. Quase toda a gente se casava com gente das redondezas: pessoas do bairro, do trabalho ou da escola. Poucas, muito poucas raparigas se casavam com noruegueses: que ela soubesse, só a sua amiga. Unir-se a alguém diferente – ainda que não fosse norueguês – deveria ser uma aventura, pensava Alícia. Sempre que ouvia algum bolero saltavam-lhe essas ideias à cabeça. Os boleros agradavam-lhe.”
("O Outro Pai", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
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sábado, 24 de janeiro de 2009
Buraco Negro #2
“Quando jovem, o vagabundo devia ter sido um tipo vigoroso, já que se teve de cavar mais de metro e meio até encontrar o primeiro dos esqueletos. O outro encontrava-se imediatamente por baixo. Carne e pele já não existiam; apenas uns farrapos de roupa. Os três homens rodeavam agora a cova e olhavam em silêncio aqueles restos.
Estavam os três exaustos e suados; tinham-se revesado com a única pá. O velho deveria ter estado à beira de desmaiar, pois obrigaram-no também a cavar, mas, tendo em conta a sua idade, não parecia encontrar-se demasiado cansado. A sombra fresca de um reduzido número de eucaliptos cobria-os; entre a ramagem, agitavam-se pássaros. Reyes pensou que, quando a tragédia ocorreu, haveria outros pássaros, mas as árvores estavam tão viçosas como antes, quando ele e Alonso ainda não tinham nascido. Reyes costumava pôr-se pensativo em situações como aquela, embora por pouco tempo.
– E onde foi que te escondeste?
O vagabundo apontou em direcção a um pinheiro alto situado a uns vinte metros, por trás de um espesso matagal. Reyes pensou que o pinheiro já lá deveria estar, ainda que mais jovem, mas o matagal teria outra forma. Alonso deu umas voltas em torno dos eucaliptos. No meio dos cardos encontrou a garrafa de vinho; ainda conservava o rótulo, e embora a tinta se encontrasse esborratada e apagada, podiam ler-se as maiúsculas da marca e os números do ano da colheita: 1946. Levantou a garrafa para que Reyes a visse. Olha o que encontrei, Reyes, disse.”
("Quando a tarde cai", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
Estavam os três exaustos e suados; tinham-se revesado com a única pá. O velho deveria ter estado à beira de desmaiar, pois obrigaram-no também a cavar, mas, tendo em conta a sua idade, não parecia encontrar-se demasiado cansado. A sombra fresca de um reduzido número de eucaliptos cobria-os; entre a ramagem, agitavam-se pássaros. Reyes pensou que, quando a tragédia ocorreu, haveria outros pássaros, mas as árvores estavam tão viçosas como antes, quando ele e Alonso ainda não tinham nascido. Reyes costumava pôr-se pensativo em situações como aquela, embora por pouco tempo.
– E onde foi que te escondeste?
O vagabundo apontou em direcção a um pinheiro alto situado a uns vinte metros, por trás de um espesso matagal. Reyes pensou que o pinheiro já lá deveria estar, ainda que mais jovem, mas o matagal teria outra forma. Alonso deu umas voltas em torno dos eucaliptos. No meio dos cardos encontrou a garrafa de vinho; ainda conservava o rótulo, e embora a tinta se encontrasse esborratada e apagada, podiam ler-se as maiúsculas da marca e os números do ano da colheita: 1946. Levantou a garrafa para que Reyes a visse. Olha o que encontrei, Reyes, disse.”
("Quando a tarde cai", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Buraco Negro #1
Buracos Negros, uma colectânea de contos de Lázaro Covadlo, o autor de Criaturas da Noite, será a nossa próxima publicação, ainda durante o 1.º trimestre de 2009. Doze contos a que correspondem outros tantos "buracos negros", uma Quinta Dimensão muito própria a este autor argentino. Eis um excerto do primeiro.
Atenção: não deve ser oferecido a crianças ou a pobres de espírito, com o risco da multiplicação e aceleração da entropia universal!
“No dia em que Gómez se fez cortar a cabeça para que fosse oferecida ao nosso Presidente, este tinha-lhe enviado umas horas antes a bandeja. Não era de ouro; era só uma bandeja de prata. O certo é que o desempenho de Gómez na sua função ministerial sempre fora algo medíocre. No entanto, dizem que se comportou como um valente no último instante, e quando lhe propuseram injectar-lhe o habitual tranquilizante desdenhou-o com galhardia. Fez a barba, tomou banho e ensaboou a consciência, para deixar o corpo bem limpo. Lavou muito bem o cabelo, e, chegado o momento, colocou o pescoço no cepo e, em tom firme, deu a voz de comando:
– Proceda – disse ao seu assistente.
O pobre homem tinha os olhos lacrimejantes, mas obedeceu sem que lhe tremesse a mão que empunhava o machado. Baixou-a com força, e de um só e certeiro golpe separou a cabeça do tronco. Quando o seu chefe ficou dividido em dois, limpou o sangue e colocou a oferenda na bandeja. Antes, passou o pente pelo cabelo de Gómez, que se tinha desalinhado.
Martínez, cujo labor na Secretaria de Propaganda do Estado fora brilhante, mereceu uma bandeja de ouro. Também ele foi valente, dizem. Antes de se fazer degolar esteve um par de horas a arranjar o bigode fininho. Agora tem uma estátua na Praça da Liberdade.”
("Em Honra do Bom Serviço", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
Atenção: não deve ser oferecido a crianças ou a pobres de espírito, com o risco da multiplicação e aceleração da entropia universal!
“No dia em que Gómez se fez cortar a cabeça para que fosse oferecida ao nosso Presidente, este tinha-lhe enviado umas horas antes a bandeja. Não era de ouro; era só uma bandeja de prata. O certo é que o desempenho de Gómez na sua função ministerial sempre fora algo medíocre. No entanto, dizem que se comportou como um valente no último instante, e quando lhe propuseram injectar-lhe o habitual tranquilizante desdenhou-o com galhardia. Fez a barba, tomou banho e ensaboou a consciência, para deixar o corpo bem limpo. Lavou muito bem o cabelo, e, chegado o momento, colocou o pescoço no cepo e, em tom firme, deu a voz de comando:
– Proceda – disse ao seu assistente.
O pobre homem tinha os olhos lacrimejantes, mas obedeceu sem que lhe tremesse a mão que empunhava o machado. Baixou-a com força, e de um só e certeiro golpe separou a cabeça do tronco. Quando o seu chefe ficou dividido em dois, limpou o sangue e colocou a oferenda na bandeja. Antes, passou o pente pelo cabelo de Gómez, que se tinha desalinhado.
Martínez, cujo labor na Secretaria de Propaganda do Estado fora brilhante, mereceu uma bandeja de ouro. Também ele foi valente, dizem. Antes de se fazer degolar esteve um par de horas a arranjar o bigode fininho. Agora tem uma estátua na Praça da Liberdade.”
("Em Honra do Bom Serviço", in Buracos Negros de Lázaro Covadlo, tradução de F. J. Carvalho)
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Paulo Barros expõe

Paulo Barros, o brilhante ilustrador de A Sereia de Curitiba, vai expôr numa nas mais conceituadas galerias do Porto, a Galeria Fernando Santos (Espaço 531). A partir do dia 17 deste mês.
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Recomenda-se

O livro/catálogo Gateways, inteiramente concebido e produzido em Portugal, começa a acumular referências de peso na imprensa e na blogosfera internacional "especializada": no blogue da Penguin, Coralie Bickford-Smith (uma das designers residentes da editora, que Andrew Howard convidou a mostrar trabalho na exposição) recomenda o livro, chamando-lhe “a great overview of book cover design from around the world, and a lovely object in its own right”. E na secção Uncoated da Eye de Inverno, página 94, o livro merece uma curta mas entusiástica referência (“a fascinating snapshot”). Também o blogue da revista alemã Slanted faz uma referência ao livro.
Lembramos que uma edição nossa está representada nesta obra, a de Criaturas da Noite de Lázaro Covadlo.
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Nova casa
Esta passa a ser a nova casa dos Livros de Areia. O blogue antigo ficará como o arquivo dos anos 2006-2008.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
“Falsos” livros de bolso
"…os livros BI são “falsos” livros de bolso, porque se afastam do estereótipo do paperback: estabeleceram um novo padrão de qualidade e as colecções de bolso que lhes vierem atrás estão obrigadas a segui-lo. Dos livros de bolso têm o formato e o preço. Dos que não são de bolso herdaram a exigência quanto aos textos, às traduções, à apresentação gráfica." (António Mega-Ferreira)A citação acima, que transcrevi de um post do Blogtailors, em si mesmo uma transcrição de um texto saído na revista NS do Diário de Notícias de 07.12 (p. 61), merece-me umas palavras.
É curiosa a inerente exposição, neste texto, de uma dicotomia entre livros de bolso (que se caracterizam, como factores positivos, pelos reduzidos tamanho e preço) e livros “que não são de bolso” (caracterizados pelo que, aparentemente, falta aos primeiros: “a exigência quanto aos textos, às traduções, à apresentação gráfica”).
Entre 2006 e 2007 deu-se em Portugal um curioso fenómeno: a “redescoberta” do livro de bolso (a julgar por alguma propaganda das editoras envolvidas na liça, dir-se-ia a “reinvenção”). Tive oportunidade de me referir a este caso na altura (aqui, aqui e aqui), caso que se correlacionava, curiosamente, com estas declarações ao DN da então responsável pela compra de livros da FNAC. Segundo ela, Portugal não aderia ao livro de bolso, sendo até, no panorama europeu, uma excepção.
Ora o que me parece é que, tal como em outros campos da vida cultural em Portugal (e tomo aqui cultura pelo seu mais lato sentido), deu-se, nos últimos 10 anos e no que aos livros e ao seu consumo diz respeito, uma contaminação novoriquista que fez com que, gradualmente e sem que se tivesse dado por qualquer motivo lógico para tal, se passasse a conceber um livro como um objecto de luxo e, como tal, digno de verdadeiras operações de tuning gráfico que chegaram a extremos de quase ridículo (lembro-me de ver, há uns anos, livros de uma excelsa e vetusta editora portuense que tinham sobrecapas com verniz e relevo cobrindo capas… com verniz e relevo). A história do livro, desde os incunábulos do século XV, prova que a sua produção sempre procurou equilibrar os imperativos da portabilidade e da durabilidade, sendo apenas o facto de uma minoria endinheirada saber ler e poder adquirir livros a fazer pender a balança para a produção de livros maiores e mais caros, facilmente encaixáveis nas posses dessa minoria (que era, muitas vezes, além de leitora também encomendadora). A progressiva alfabetização e expansão do sistema regular de ensino no século XIX preparou a oscilação da balança para o outro lado, culminando-se as sucessivas tentativas de criação de colecções de bons livros de bolso ou de mais pequeno formato nas décadas de 1920 e 30 (La Pleiade, Charles Boni, Albatross, Birkhauser) na revolução operada por Allen Lane à frente da Penguin, marca tornada, por sinédoque, na referência e no símbolo de excelência no formato de bolso. E, tal como antes, mais uma vez as circunstâncias socio-económicas impuseram o seu veredicto.
Estas afirmações de Mega Ferreira, independentemente do apreço que a colecção BI possa merecer, manifestam e são mais um eco de um fenómeno perturbante: o divórcio de um país pouco letrado (ainda recentemente afundado nos mais baixos lugares das estatísticas mundias da alfabetização) e em permamente dificuldade económica com o formato e o tipo de livro mais barato e acessível, esse mesmo “livro de bolso” associado a uma ideia de fraca qualidade e baixos padrões culturais e que passa quase por “falso” quando exibe características de qualidade.
E isto é tanto mais extraordinário quanto, como qualquer thirtysomething nascido ou vivido em Portugal pode lembrar-se, há uma tradição de boa edição de bolso ou de “capa mole” (com ou sem badanas) com que nos deparámos nos primeiros contactos com os livros, vinda dos anos de 1940 até à década de 70, e que continuou em projectos pontuais nos anos de 1980. A ideia de que a edição de bolso possa ser sinónimo de má qualidade é-me, pessoalmente, estranha, tendo em vista essa mesma tradição, sobre a qual escreveu eloquentemente João Bicker, e que volto a citar:
“A edição em livro de bolso tem uma tradição em Portugal de que esta iniciativa é devedora, com exemplos tão notáveis como a colecção ‘Três Abelhas’ iniciada nos anos quarenta por José Cardoso Pires e Victor Palla, a coleccção Unibolso, com um catálogo notável e que, em tempos bem mais difíceis para a cultura do que o nosso, fez chegar a grande literatura nacional e internacional a uma faixa muito alargada da população. Como fez a colecção Miniatura, de Livros do Brasil, que editou 400 títulos. Como o fizeram as colecções Livros RTP, Livros de Bolso Europa-América (no seu início) e as colecções de bolso dos Estúdios Cor, e da Portugália, e da Ulisseia e ainda a Biblioteca Arcádia, para referir apenas algumas. Assim, a iniciativa vale porque se inscreve nessa tradição e não pela sua singularidade. Isso é que deve ser o seu motivo de orgulho.”As “excepções”, as “singularidades” e as “inovações” podem, afinal, carecer apenas de uma ligeira afinação da memória, com o risco de parecerem o que (possivelmente, pois que las hay…) serão: manobras de marketing.
(PM)
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