terça-feira, 26 de abril de 2011

Pergunta inocente

Se a Babel, a Leya e a Porto Editora são os "donos dos livros", que papel tem a APEL? E será que na próxima Feira se vai começar a pagar directamente ao triunvirato, em vez de à APEL, pela honra de lá se estar?

terça-feira, 12 de abril de 2011

"POSTALAPOCALÍPTICA": em tempo de crise



T-SHIRTS a preço de crise: temos algumas t-shirts "POSTALAPOCALÍPTICA", com um mini conto exclusivo de Rhys Hughes estampado na frente, a 8.00 Euros. Disponíveis em tamanhos S (1), M (3), L (2) e XL (4). STOCK LIMITADO E FINAL. Consultem a LOJA no nosso site.

sábado, 9 de abril de 2011

"Hatuey"

"1511, Yara.
Nestas ilhas e nestes lugares de tortura, são muitos os que escolhem a morte, enforcando-se ou bebendo veneno junto de seus filhos. Os invasores não podem evitar esta vingança, mas sabem explicá-la: os índios, tão selvagens que pensam que tudo é natural, dirá Oviedo, são gente por natureza ociosa e viciosa, e de pouco trabalho... Muitos deles, como seu passatempo, mataram-se com veneno para não trabalhar, e outros enforcaram-se por suas próprias mãos.
Hatuey, chefe índio da região da Guahaba, não se suicidou. Em canoa fugiu de Haiti, juntamente com os seus, e refugiou-se nas covas e nos montes do oriente de Cuba.
Aí apontou para uma cesta cheia de ouro e disse:
- Este é o deus dos cristãos. Por ele nos perseguem. Por ele mataram os nossos pais e os nossos irmãos. Bailemos para ele. Se a nossa dança lhe agradar, este deus mandará que não nos maltratem.
Apanham-no três meses depois.
Atam-no a um pau.
Antes de acender o fogo que o reduziria a carvão e cinza, um sacerdote promete-lhe glória e eterno descanso se aceitar baptizar-se. Hatuey pergunta:
- Nesse céu, estão os cristãos?
- Sim
Hatuey escolhe o inferno e a lenha começa a crepitar."

Eduardo Galeano, Memória do Fogo – Os Nascimentos (tradução de António Marques; no prelo)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

"Morrem aqui, renascem ali"

"1677, Old Road Town.
Não o sabe o corpo, que pouco sabe, nem o sabe a alma que respira, mas sabe-o a alma que sonha, que é a que mais sabe: o negro que se mata na América ressuscita em África. Muitos escravos desta ilha de Saint Kitts deixam-se morrer negando-se a comer ou comendo não mais do que terra, cinza e cal; e outros atam-se uma corda ao pescoço. Nos bosques, entre as lianas que pendem dos grandes salgueiros-chorões, pendem escravos que não somente matam, ao matarem-se, a sua memória de dores; ao matarem-se também iniciam, em branca canoa, a viagem de regresso às terras de origem.
Um tal Bouriau, dono de plantações, anda na folhagem, machadinho na mão, decapitando enforcados:
– Pendurem-se, se quiserem! – adverte os vivos. – Lá nos vossos países não terão cabeça nem poderão ver, nem ouvir, nem falar, nem comer!
E outro proprietário, o mayor Crips, o mais duro castigador de homens, entra pelo bosque com uma carreta carregada de caldeiras de açúcar e peças de moinhos. Busca e encontra os seus escravos fugidos, que se reuniram e estão atando nós e escolhendo ramos, e diz-lhes:
– Continuem, continuem. Eu me enforcarei com vocês. Vou acompanhá-los. Comprei em África um grande engenho de açúcar, e lá vocês trabalharão para mim.
O mayor Crips escolhe a árvore maior, uma ceiba imensa; enlaça a corda à volta do seu próprio pescoço e enfia o nó corrediço. Os negros olham para ele, aturdidos, mas a sua cara é uma pura sombra por baixo do chapéu de palha, sombra que diz:
– Vamos, todos! Depressa! Preciso de braços na Guiné!"

Eduardo Galeano, Memória do Fogo – Os Nascimentos (tradução de António Marques; no prelo)

"Cláudia, a feiticeira"

"1674, Potosi.
Com a mão movia as nuvens e cantava ou afastava tormentos. Num abrir e fechar de olhos trazia gente de terras muito distantes e também da morte. A um corregedor das minas de Porco fez-lhe ver Madrid, a sua pátria, num espelho; e a dom Pedro de Ayamonte, que era de Utrera, serviu-lhe à mesa tortas recentemente feitas num forno de lá. Fazia brotar jardins nos desertos e tornava virgens as amantes mais sabidas. Salvava os perseguidos que buscavam refúgio em sua casa, transformando-os em cães e gatos. Ao mau tempo, boa cara, dizia, e à fome, guitarradas: tangia a viola e agitava a pandeireta e assim ressuscitava os tristes e os mortos. Podia dar aos mudos a fala e tirá-la aos charlatães. Fazia amor à intempérie, com um demónio mui negro, em pleno campo. A partir da meia-noite, voava.
Tinha nascido em Tucuman, e morreu, esta manhã, em Potosi. Em agonia chamou um padre jesuíta e disse-lhe que tirasse da gavetinha certos vultos de cera e lhes tirasse os alfinetes que tinham espetados, que assim se curariam cinco padres que ela tinha feito adoecer.
O sacerdote ofereceu-lhe confissão e misericórdia divina, mas ela riu-se e a rir morreu."

Eduardo Galeano, Memória do Fogo – Os Nascimentos (tradução de António Marques; no prelo)

domingo, 3 de abril de 2011

"Os serventes brancos"

"1666, Londres.
Três barcos cheios de serventes brancos deslizam pelo Tamisa rumo ao mar. Quando abrirem as suas comportas, na remota ilha de Barbados, os vivos marcharão para as plantações de açúcar, algodão e tabaco, e os mortos para o fundo da baía.
'Espíritos' se chamam os traficantes de serventes brancos, bem mágicos na arte de evaporar gente: enviam para as Antilhas as putas e os vagabundos sequestrados nos bairros baixos de Londres, os jovens católicos caçados na Irlanda e na Escócia e os presos que esperavam pela forca no cárcere de Bristol por terem matado um coelho em terras privadas. Armazenados à chave, nos porões dos barcos, acordam os emborrachados apanhados nos cais, e com eles viajam até às Américas algumas crianças atraídas com guloseimas e muitos aventureiros enganados pela promessa de fortuna fácil. Lá, nas plantações de Barbados ou da Jamaica ou da Virgínia, lhes espremerão o sumo até que tenham pago o seu preço e o preço da passagem.
Os serventes brancos sonham em tornarem-se donos de terras e de negros. Quando recuperam a sua liberdade, ao cabo dos anos de dura penitência e trabalho sem salário, a primeira coisa que fazem é comprar um negro que lhe abane o leque à hora da sesta.
Há quarenta mil escravos africanos em Barbados. Os nascimentos registam-se nos livros de contabilidade das plantações. Ao nascer, um negrito vale meia libra."

Eduardo Galeano, Memória do Fogo – Os Nascimentos (tradução de António Marques; no prelo)

segunda-feira, 14 de março de 2011

"Texto de grande consistência e clareza"



Eis a recensão de Inês Botelho a A SIMBÓLICA DO ESPAÇO EM 'O SENHOR DOS ANÉIS de Maria do Rosário Monteiro, publicada no número 9 da revista BANG!.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Ou a escrita ou a vida

Chama-se Pedro Chagas Freitas e é a "estrela" literária que vai estar na Porto Book Stock Fair a escrever 24 horas sem parar, esperemos que com alguma vaselina na ponta dos dedos. Diz que é o Mourinho da escrita criativa, mas a prosa soa a Carlos Queiroz...

Um pérola: "Aprenda, em pouco tempo, a escrever de forma irrepreensível e criativa. Sem secas. E sem ter sequer de sair de casa." ("Escrever" e "sair de casa" são, portanto, actos correlacionados e interdependentes; a "seca", presume-se, será a obrigação de ler, coisa de somenos para quem quer, afinal e apenas, escrever.)

Outra pérola: "Um dia, disseram-me que, na vida, teria de optar entre escrever e viver. Optei, sem hesitar, por escrever. E sei, hoje, que é ao escrever, e só ao escrever, que sou capaz de viver." (Mas quem lhe impôs essa fatal opção? A Gestapo? E, pela lógica da mesma, ele não deveria estar já morto? Não estará?)

Do mesmo planeta em que "editoras" prometem publicar "todos" os manuscritos recebidos (com a devida factura enviada ao "autor"), chegam os messias da escrita "criativa" (para não confundir com a escrita que não é criativa, como a dos oficiais de contas), no caso, os "Mourinhos" do processador de texto. A sua vida pode mudar. Basta ser escritor. E criativo. E "prontos".

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Entretanto. no Clubalice...


Entrevista em duas partes para o quinto número do Clubalice de Maria João Freitas: parte 1 e parte 2. Tudo o que quiseram (ou não) saber sobre a Livros de Areia, cubanos, Lolitas, revistas analógicas. E isso.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Nada de novo

Impressões do primeiro "Nada de cultura", emitido hoje à 1 hora da manhã na TVI24. Achei a conversa muito morna e algo formal: quatro pessoas do mesmo meio que se conhecem e se vêem há anos a tratarem-se por "você". (Seria uma estratégia para camuflar essa mesma proximidade perante a massa de espectadores alheios ao mundo da edição?) O estilo televisivo de Francisco José Viegas não muda há anos, e continua a faltar uma valente dose de contraditório e abrasão neste tipo de programas culturais (mesmo com o Pedro Mexia convenientemente colocado no "outro lado" da mesa): apesar do tratamento deferencial, há familiaridade em excesso. É preciso algo mais e mais dinâmico (e não apenas o frenético movimento da câmara sobre os rostos dos participantes) do que uma ligeira conversa de ocasião entre quatro colegas para manter os olhos abertos em frente ao monitor à 1 da manhã.
(PM)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

"Condessa" de Lautréamont

"Coup sur coup, j'ai publié le Journal de Jeanne et Cataclysme sexuel, écrit par une jeune Elisabeth Chandet. C'était une petite personne a nattes, de seize ou dix-sept ans, le visage serein et angélique, un marquis de Sade en minijupe. Une imagination aussi débordante que celle de Mario [Mercier], mais avec une utilisation mieux surveillée de la syntaxe.
J'ai vendu les droits de Cataclysme sexuel a un éditeur portugais, après la révolution du 25 avril. Celui-ci m'avait demandé de changer le nom de l'auteur, avec la permission de l'intéressée, bien entendu. Nous acquiesçons a son désir. L'éditeur nous envoie nos exemplaires de presse. Stupéfaction, hilarité! Le livre portait 'Isidora Ducasse, comtesse de Lautréamont'".
(Eric Losfeld, Endetté comme une mulle ou la passion d'éditer, Belfond, Paris, 1979, p. 138)
P.S.: Alguém sabe de que editor e edição se tratou?

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Maresia de Janeiro



Ou "marzïa". Para saber mais, só indo ao Teatro Municipal de Almada a partir de 11 de Janeiro.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Um ano de "Fome"



Somando e seguindo na atenção despertada em alguma crítica, FOME de Elise Blackwell volta a estar numa lista dos "melhores" de 2010. Desta feita, trata-se da lista de 1o títulos elaborada por Nuno Galopim no blogue Sound+Vision, que partilha com João Lopes.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A nossa mensagem de Natal e Ano Novo, trazida pelo Sr. Eric Losfeld


Face ao belo ano que se anuncia, fazemos nossos o gesto e parte das palavras do Sr. Losfeld (endividados ainda não, graças aos santinhos). O manguito sempre foi a nossa resposta instintiva à crise (a tudo, no fundo), e, pela amostra desta capa da autobiografia do editor "marginal" par excellence, terá sido também cultivado em França (e na Bélgica, terra natal do "pai" de Barbarella ). E este é quase tão bom como o mais famoso manguito português do século XX (note-se apenas a diferente técnica no uso do braço esquerdo). Aguentem-se que a coisa está dura. E vemo-nos em 2011.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Em boa companhia



Ahab (através de Andrew Howard), Tinta da China (através de Vera Tavares) e o incontornável Vítor Silva Tavares. Se o Gonçalo Mira achou que devíamos estar ao lado desta excelsa companhia, só a ele devem ser assacadas responsabilidades pelo seu artigo "Pode-se julgar um livro pela capa" (p. 18) no "Ípsilon" (Público) de hoje. Pela nossa parte, tentou-se, literal e figurativamente, "ficar bem na fotografia" e não desmerecer tamanha honra. (Ler o artigo aqui).

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

The tip of the tongue, taking a trip in three steps

Só em Portugal: a editora do Lolita de Nabokov é agora gerida por um especialista do "sector" de literatura... infanto-juvenil. Humbert Humbert deve estar a rir às gargalhadas no túmulo ficcional. Para ler e espantar aqui.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"Num tempo cinzento, um abraço azul"



Vindo de Rodrigo Francisco, um dos responsáveis pela Companhia de Teatro de Almada, aqui reproduzimos este apelo:

"No Sábado, 11 de Dezembro, às 16h00, a população de Almada, o Clube de Amigos do TMA, e muitos artistas e intelectuais que admiram a actividade desenvolvida pelo Teatro Municipal de Almada vão manifestar publicamente o seu repúdio pelo corte no financiamento por parte do Ministério da Cultura, que vai afectar este verdadeiro Centro Cultural que se tornou não só num emblema de Almada, mas também num ponto de referência nacional e internacional.
Os manifestantes – que deverão trazer uma qualquer peça de vestuário de cor azul – vão, nestes tempos cinzentos, dar um Abraço Azul ao Teatro Azul.
O director do TMA, Encenador Joaquim Benite, e outros oradores farão intervenções públicas sobre a situação que se vive. Os actores interpretarão canções da peça A Mãe, de Brecht, um dos grandes êxitos recentes da Companhia Teatro de Almada. Fernando Tordo solidariza-se com a Manifestação, fechando a sessão com um concerto especialmente preparado.
De todo o País e de vários pontos do Globo estão a receber-se mensagens de protesto, de apoio e de estímulo.
Apelamos a que todos apelem à mobilização para este acto de protesto e de defesa. Com a força do vosso apoio estamos certos de que o TMA e a cidade de Almada sairão fortalecidos desta crise."

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A manchete mais estúpida do ano

Uma das mais estúpidas manchetes do ano (e o nível de estupidez na informação começa a atingir o vermelho na escala de Orwell) foi sem dúvida esta da Folha de S. Paulo: "Livros eletrônicos reduzem estigmas da leitura solitária" (na verdade, uma tradução de um artigo escrito por Austin Considine e publicado no New York Times em 20 de Agosto, prova – mais uma – da morte lenta desse jornal). A perplexidade atinge-nos de vários lados ao lermos isto, e o lado pelo qual vemos uma clara campanha de promoção dos gadgets de leitura de ebooks não é despiciendo (a foto que ilustra o artigo no site do NYT tem uma modelo a mostrar um ipad, ou seja, uma redundância). Chegamos, pois (ou regredimos), ao ponto da história da civilização em que ter um livro "tradicional" na mão equivale a confessarmos um vício na masturbação compulsiva ou na troca de seringas de heroína, estigmas que apenas a leitura de um livro "electrónico" parece reduzir ou até eliminar. (Sinal do apocalipse: no site de uma editora portuguesa promete-se enviar os livros por correio em "embalagem discreta"...)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

FOME é um dos melhores do ano



FOME de Elise Blackwell é um dos livros na selecção dos melhores do ano que a revista LER publica na sua edição de Dezembro. Temos de notar que já em 2009 a LER tinha considerado BURACOS NEGROS de Lázaro Covadlo um dos livros do ano.